
Por fim, nasci. Foram 2 meses apertados dentro da barriga da minha mãe. Tive que dividir um espaço minúsculo com os meus outros irmãos. A convivência estava se tornando difícil. Eu cresci demais, me desenvolvi muito lá dentro. Meu óvulo já me mostrava para que eu viria: inquieto, fez um ping pong no útero da minha mãe até conseguir se fixar em algum ponto. Me divertia com os espermatozóides do meu pai se cansando de esperar para entrar no meu óvulo, ou melhor, no que viria a ser eu.
Enquanto meus irmãos eram calmos, eu era inquieta. Se minha mãe estava fazendo ultrassom eu sentia aquele gelado que colocavam na barriga dela e o empurra-empurra do moça pressionando o aparelho contra nós. Queria me destacar no visor, me remexia de todas as formas. Queria impressionar, queria chamar a atenção, queria ser uma estrela. Me perguntava se na minúscula salinha haveria um olheiro para me levar para a Broadway. Ué, nunca se sabe.
Chegou o grande dia, o útero apertava a gente de todas as formas. Tínhamos feito fila para nascer. Éramos organizados dentro da barriga de mamãe. Eu tentava acalmar todos e dizer que íamos passar por um momento dificil, mas que seria glorioso ver a luz.
Saí. Fiquei cega e com falta de ar. Uma mão me pegou e me levou diretamente para a minha mãe. Ela se encarregou de me dar umas boas lambidas, e, foi dessa forma, que fui recebida no mundo.
Gulosa, queria a maior teta para mim. Arteira, enquanto todos estavam quietos, eu choramingava, latia, querendo chamar a atenção e brincar. Meus irmãos eram introspectivo. Acho que era para manter a elegância da raça. Mal eles sabiam que eu era um patinho feio, uma genérica da raça, uma Shih Tzu selvagem. Disciplina para que? Lacinhos? Pompons? Medo de chuva? Queria mais era me lambuzar. Correr na chuva. Me esfregar no barro. Mas para isso eu precisava de um lar?
A cada visita ao berçario, era apertada daqui e dali por estranhos e esquisitos. As pessoas se entusiasmavam, diziam: “Que Bonitinho!”, “Que Fofinho!” e depois deixavam-nos no berço e discutiam cifras. Um a um, meus irmãos foram embora. Até que um dia recebemos uma visita inesperada. Era um domingo chuvoso e frio. O telefone na casa estava agitado desde cedo. Minhas pseudo donas estavam inquietas. De repente uma delas saiu e voltou com uma moça e simpática que vestia um casaco rosa.
A cachorrada latia prevendo o meu dia de festa. A moça se aproximou do berçario. As pseudo donas queriam “empurrar” os meus irmãos. Mas a moça era tinhosa, viu que eu era a desunida do grupo, viu que eu tinha personalidade. Não titubeou muito, apontou para mim e disse: “Eu quero aquela.” – disse isso como quem pede um quilo de presunto, como quem escolhe um sonho na padaria. Senti um frio na espinha. Uma das moças me pegou para que a mulher de rosa me examinasse – como se precisasse, né? Eu era perfeitinha. Bem, ela me pegou no colo meio sem jeito. Tirou inúmeras fotos. Combinou cifras e o dia da minha entrega. Sim, agora eu tinha dona. E a minha dona era aquela simpática criatura de rosa.
** Não perca, na próxima semana conheça como fui recebida no meu novo lar.
