sexta-feira, dezembro 25, 2009

Papai Noel e Menino Jesus


Esse natal parece mais um sacrificio do que uma festa, complicado. Os dias estão mais compridos, os risos mais curtos, a intolerância maior, a felicidade menor, as coisas estão opostas aos meus desejos.

No rádio de um vizinho não tão distante está tocando o clássico "Então é Natal".... Pois é, estamos no Natal, e daí? Flocos de neve deveriam se abater sobre mim? Não, moro num país tropical. Aqui não neva. Acho incrível como as pessoas incorporaram essa tradição inventada por uma indústria de refrigerante. Compram bolinhas de vidro com flocos de neve, chacoalham e show de neve. Compram árvores de natal com flocos de neve nas pontas. Alguns até colocam um boneco de neve artificial pendurado em algum canto da varanda, ou até numa chaminé.

Escrevi a minha cartinha para o papai noel, como manda o protocolo, reconheci que não fui tão boa este ano em minhas atitudes, mas que o meu coração é bom. Sou apenas uma mocinha cheia de vida e levada da breca. Agradeci pelo presente do ano passado e aproveitei a oportunidade para pedir outro. Não é para isso que escrevemos para o Papai Noel?

Enfim, hoje, deitada no tapete me perdi entre os pequenos pontos de luz que piscavam de maneira intermitente. E fiquei questionando a origem do natal. Celebramos o nascimento do menino jesus. Ahn? E agora? O Papai Noel surgiu de onde nisso tudo? Seria uma versão dos três reis magos? Unificaram os três Reis Magos em um Bom Velhinho?

Hoje em dia acho que estamos mais para a versão do Bom Velhinho, do que para o nascimento do Menino Jesus, a visita dos três Reis Magos e aquele presépio. Eu sempre me perguntei, por que Papai Noel não tinha um lugar no presépio. Não gosto quando as coisas perdem o sentido. O próximo da minha lista de investigação é o Coelhinho da Páscoa. Por que o Coelho é o portador dos ovinhos da páscoa? Nem colocar ovos ele coloca. Entrarei nessa discussão depois.

Será que a figura do Bom Velhinho e do Coelhinho da Páscoa surgiram porque adotar uma postura cristã não estava mais sendo lucrativo. Comemorar o nascimento do Menino Jesus, mas como? E o comércio, vive de que? E quem não é cristão? A ressureição de Cristo apenas tomando um cálice de vinho? Vamos fazer mais! Vamos trocar presentes! Vamos alavancar a economia! No final das contas, é cascalho para lá, cascalho para cá, e é isso que importa e está por trás de toda essa fábula.

P.S: Papai Noel passou e me deixou um ossinho de borracha com fio dental que o Floc está destruindo neste momento.

Era uma vez num reino encantado se prepare para sonhar...


Nunca me dão crédito, nunca me dão nada. Não consigo nem comer o pão que me dão, sou roubado antes de chegar ao sofá. Sim, é sempre ela: a Lily. Eu gosto dela, a gente se dá bem, mas ela é autoritária demais. Mais uma vez roubei o blog dela para mim. Deixaram-me aqui, preso no quarto, só porque eu mordo e tem estranhos na casa. Não me dão crédito para mudar. Sempre serei aquele cachorrinho branco e mau.. Mas eu sou um doce, perguntem para minha mãe....

Para quem não me conhece, eu sou o Floc. Não sou tão bom com as palavras. Sou mais retraído. Não gosto de ficar só. Fico deitado na varanda, esperando qualquer movimento da casa. A casa fica parada, nem um ventinho para agitar as árvores. Mamãe saiu com a promessa de que voltaria logo. E, cá estou eu, esperando, e nem tem cinco minutos que ela se foi. Será que demoraria? Até a Lily me deixou. Minha bexiga está explodindo, mas não posso fazer isso aqui no quarto da mamãe. Ela brigaria comigo, e, eu odeio quando ela grita comigo. Me sinto mal. Abaixo a cabeça e deito aos pés dela, como se implorasse para que ela me pegasse em seus braços e me fizesse um carinho.

Vim do Sul, minha educação é quase britânica e minhas carências também. Sou cachorro de colo, sim. Adoro um chamego. Lato e até mordo para defender a integridade do meu lar. Sou cão das antigas... O tempo passa e minha mãe não chega. Vou mudando de lugar pelo quarto. Deito na cama. Deito no tapete. Deito na varanda. E nada dela. Enquanto isso, passam de um lado para o outro, no jardim, uns homens que nunca vi antes, carregando portas e móveis de um canto para o outro. E eu fico puto e começo a latir. Pergunto se eles sabem por onde anda minha mãe, e eles não me respondem! Viram as costas para mim! Lato mais alto.

Sem querer, ligo a televisão. Pelo menos me faz companhia. Mas não me diverte. Converso com o Janjão, urso que meu padrasto deu para mamãe. Ele me acolhe nas patas de pelúcia. Pego no sono. Sonho que sou dono de um mundo só meu, que os brinquedos são só meus e que eu tenho uma mãe só para mim. Sonho que tenho duas empregas para me fazer cafuné, sou sultão nesse palácio. Uma moça loira aparece e de repente, Brum Tocra Brum Tocra Brum,, mamãe chegando para me soltar enfim. Ela chega, entra em casa e nem olha para mim. Lato, berro, grito, mas é em vão.

Deito na varanda e fico olhando-a pela treliça. Ela sobe as escadas, atravessa a piscina e vem ao meu encontro. Estou eufórico. Ela voltou para mim. Subo na cama e faço festa e imploro para ir ao banheiro. Ela parece me entender, abre a porta e me deixa solto pelo jardim. Lá, pareço voltar ao meu sonho, como miragem me aparecem: A moça loira de nome Alice, o coelho com o relógio, a rainha de copas. E ele fala comigo: “Ai, ai, meu Deus! Alô, adeus! É tarde, é tarde, é tarde!”, e some jardim afora.

Procuro mamãe pela casa, não a encontro. Aliás, não tem ninguém em casa. Estou só. Além, do coelho, uma carta de baralho ganha vida na sala. Desfila impetuosa com uma roupa de coração. Dando ordem a todos os outros naipes. Eles não me notam. Vou até a cozinha. Cartas de baralho cozinham. Cartas de baralho arrumam a casa. Cartas de baralho por todos os cantos. Até que o Valete de Paus me aborda dizendo que cartas brancas não eram bem vindas àquele reino. E, que pela legislação, eu teria que ser levado até a Rainha de Copas.

Um exército de Espadas veio na minha direção e levaram-me à majestade. Vossa Majestade estava na cabeceira da mesa da sala, cercada por cartas de ouro. Dava ordens e mandava decapitar os invasores. Engoli um seco quando ela me olhou. Tentei fazer cara de simpático, bom moço, de cachorro que caiu da mudança. Ela simpatizou comigo por alguns segundos. Mas logo depois veio a ordem: Cortem-lhe o pescoço e depois me façam uma echarpe. A última coisa que vi antes de apagar foi um baralho inteiro me rodeando, desmaiei de susto.

Acordo no sufoco, coração a mil. Ainda estava vivo. Que horas seriam? Onde estavam as cartas? Ufa! Era só um sonho! Quanto tempo teria dormido? Olho a minha volta, em cima da cama, ao meu lado: uma carta de Às de copas e um relógio de bolso. Pelas contas, tinham se passado apenas 20 minutos que mamãe tinha saído. Demoraria quanto tempo mais para voltar? Qual seria o meu próximo destino: provar o pó do pirlimpimpim das Reinações de Narizinho?

sábado, dezembro 19, 2009

Dia de compras

Brum Brum Brum.. é o barulho do carro da mamãe chegando. O que será que ela traria da rua para mim ? Gosto quando ela sai do carro cheia de sacolas. Adoro fuçar as novidades. Não me controlo. Saio como uma louca em direção ao carro. Todos gritam achando que eu vou cometer suicídio. Não faria isso. Amo a minha vida. Amo receber mamãe no carro. Já o Floc se atira mesmo na frente do carro. Ele faz jus àquele ditado que diz que todo pequeno é abusado, seja cachorro ou gente. O suicida vai em direção o carro, mamãe tem que parar no meio do caminho, colocá-lo para dentro e depois prosseguir até a garagem. Quanto a mim tenho medo de entrar no carro. Carros me lembram banho, veterinário, coisas não muito agradáveis. Prefiro ficar de fora.

Ventuinha acionada, carro desligado, porta aberta, hora de ir receber mamãe. Coloco as patinhas na porta, mas não entro, só sinto o cheiro da rua. Humm, um cheiro familiar, hum, o nome agora me foge, sim, era o meu papa, mamãe tinha ido a Pet comprar a nossa ração. Era um pacote enorme, nunca tinha visto um pacote tão grande, li na embalagem que era de 7,5 kg! Uau! Minha ceia de natal está completa! É, Floc, este ano nos damos bem!

Será que isso é para tentar me comprar? Para fazer com que eu não tente roubar umas fatias de tender, como no Ano Novo passado. Abro um parênteses para dizer que foi absolutamente T E N T A D O R! O pessoal ocupado vendo aqueles barulhos fatais para o ouvido de qualquer cão – SIM, vendo barulhos, gostaram da minha definição para o ato de ver fogos de artifícios? – Enfim, enquanto eles estavam lá num clima romântico, aquele negócio de primeiro beijinho do ano para cá, para lá, fui lá e resolvi ceiar algumas fatias de tender. Que mal há nisso? E, com certeza, não será esse saco de ração, que diga-se de passagem que eu como o ano inteiro, que vai me impedir de furtar mais algumas fatias esse ano. (Papai Noel, não leia essa parte, tá?)

Mamãe reúne algumas coisas na mão, se estica toda para alcançar as sacolas no banco de trás – a lei do menor esforço de sair do carro e abrir a porta de trás. Muitas sacolas, deixe-me ver, uma da Lojas Americanas, outras da Casa e Vídeo, outra de uma loja de roupas íntimas, outra da farmácia e um saco plástico preto sem significado. Depois de duas horas, ela sai do carro parecendo a Julia Roberts no filme “Uma Linda Mulher”.

Repito: Adoro fuçar as sacolas de compra. E mamãe entende esse meu lado, é como se fosse um ritual mãe e filha. Ela se senta na cama, eu subo e começamos a abrir as sacolas.. E ela me apresenta a tudo: isso aqui é da mamãe (em outra palavras, Lily, mantenha seus dentinhos longe da minha escova de dente nova).. e assim me são apresentados: fio dental, escova de dente, sabonete, revistas de viagem, livros, garrafas de vinho, resumindo, tudo que o dinheiro compra. Até que para minha surpresa, o saquinho preto e insosso foi aberto, e pasmem, ela disse a frase: isso aqui é da Lily, uma bolinha colorida com um Guizo dentro... agora esse aqui é do Floc, um ossinho com fio dental. Ganhamos presente! Mas ainda aguardo o seu, Papai Noel. Lembre-se garota comportada! ;)

sexta-feira, dezembro 18, 2009

Carta a Noel


Querido Papai Noel,

A casa já está enfeitada para o Natal. Vovó decorou a lareira e montou a árvore com aquelas bolas vermelhas enormes. À noite, quando todos se recolhem, me deito no tapete da sala e fico vendo os pequenos pontos de luz se alternarem. Fico fascinada. Desde pequena mamãe me ensinou que quando a casa está decorada é hora de escrever para o senhor.

Primeiramente, gostaria de agradecer a bolinha verde de borracha do ano passado. O senhor acertou em cheio, adoro bolinhas. Aproveito para agradecer também pelo Floc, ele é um bom menino, só um pouco desligado, para não dizer mal agradecido. Tudo bem que ele conseguiu destruir o meu presente e o dele em três dias. Mas o que vale é a intenção. Mais uma vez, agradeço por nós dois.

Acho que este ano eu fui uma menina muito bem comportada. Tudo bem, fiz xixi algumas vezes no cantinho da sala e o “número dois” na porta de saída, mas já vou logo avisando que foi por falta de opção. Eu queria chegar no meu banheirinho ao ar livre, mas a porta estava fechada e eu, apertada. É, também lati um pouco demais da conta no horário que a vovó descansa. Ela ficou zangada, mas já me desculpou.

Também fiz outra coisa feia: briguei com um gato que cismou que vai morar aqui, e, de fato, está morando aqui, numa caixinha em cima da mesa, do lado de fora da cozinha. Ah, Papai Noel, vou me defender novamente: o gato invade o meu território e eu faço nada? Não fazer coisa alguma é como assinar um atestado de inutilidade nesse mundo. Mas, perdi a briga, fui parar no veterinário, quase fiquei cega de um olho. Esse gato que foi o menino mau da história, eu, se fosse o senhor, cortaria ele da lista. Longe de mim querer influenciar qualquer decisão, mas só para constar, ele se chama Tobias.

É, acho que não fui tão boa assim. Vou deixar que o senhor analise e veja se eu mereço ganhar um presente neste Natal. É, estou lembrando de mais coisas terríveis: eu sou má com o Floc, roubo o pão que ele ganha, se ele tentar me intimidar , brigo com ele. Falo grosso e o coloco no lugar dele. Sinceramente, Papai Noel, não estou merecendo muita coisa não. No entanto, se o senhor me der uma chance, pode ser pequena, eu me esforço para até o Natal me redimir com o Floc, com o gato forasteiro, ficar em dia com as minhas necessidades no banheirinho ao ar livre, faço voto de silêncio e farei apenas uma refeição por dia. Ah, e prometo não fazer estardalhaço quando o senhor descer pela lareira. Será que sou digna de pelo menos um ossinho colorido? Ou um daqueles brinquedos que fazem fiu fiu?

Aguardarei ansiosamente a sua visita, Papai Noel,

Um beijo

Lily

quarta-feira, dezembro 02, 2009

Visita da prima

Movimentação estranha na casa. Enrola o tapete daqui. Corta grama dali. Sim, a Giulia ia chegar. Minha avó estava eufórica com a chegada da neta. Finalmente a menina de Paris, menina dos olhos da vovó iria chegar mandando e desmandando. Fui até mandada para o banho em regime especial: em vez da van do banho vir me buscar, vovó e mamãe me levaram para o banho. Não apenas me levaram, mas me buscaram também. E uma tragédia: me pelaram, me tosaram, me tiraram o centro, o equilíbrio. Estava com calor, eu confesso, mas também não era para tanto. Meus pelos, ah, meus pelos. Só de pensar neles, atirados no chão por uma máquina zero, me revolto! Voltei para casa com uma sombra, andava pela lajota e meu andar me anunciava para quem quisesse ouvir. Não havia mais pelos para amortecer o meu desfile. Era uma sensação muito estranha. Roçava pelo chão e sentia toda a sua frieza, que antes era aplacada pela minha pelagem. Subia nas cadeiras, no sofá, sentia-me flutuar. Ô Céus, como eu estava ridícula. Olhava para minha mãe destilando a minha amargura: “Como você pode fazer isso comigo? Todos riem de mim.” De fato, todos estavam rindo de mim. Minha tia Vivi chegou a duvidar da minha identidade. Estranhei quando ela chegou me chamando de “Pitucão”, “Lily”, “Bebelily”, esperando alguma reação. Sim, era eu! Simplesmente eu, BebeLily Streit. Tosada e não prostituida. Mas quase... e ainda tinha que aturar o Floc, que me achava afrodisíaca depois do banho. Com a tosa, então...

Censura! A criança chegou, ou melhor a princesa Giulia. Será que ela me reconheria? Tensão. O carro chega, sobe portão acima, estaciona na garagem. Meu coração a mil! Repito a pergunta: Será que ela me reconheceria? Abrem a porta da esperança, é a minha chance de ser envolvente. Vou até a criança, pulo, me mostro, e logo, logo, o reconhecimento: “É a Lily!” . Ufa, me atiro no chão, de barriga para cima, agradeço ser reconhecida, apesar dos pelos. E mais um tempo depois, não era mais Vovó, nem titia, nem Floc, era só Lily. Lily daqui e dali! Ganhei menção honrosa e agradecimentos. A pequena me pegou no colo como um troféu. Ai Ai minha patinha, cuidado! Ser cachorrinho de criança é bom por um lado, mas dá trabalho por outro. Floc, se manda, ela está vindo com o pincel cheio de tinta verde colorir o nosso pelo branco. E agora, a canetinha rosa. Sebo nas canelas tosadas! Vamos para a mamãe.!

Alivio. A tinta foi para a tela. Eu e Floc ilesos. Agora era hora de brincar. Pegar os brinquedos do chão. A Arara Azul, as xícara do jogo de chá das bonecas, os pratos e talheres do lava-louva. Tudo era irresistível! Tudo parava na minha boca! Como era bom ser criança! Queria brincar também! Repreenderam-me... Comi massinha vermelha, giz de cera rosa, tampa de canetinha amarela, facas de plástico, panelinhas, tudo que estava ao meu alcance, no chão... Que vida boa!

quinta-feira, outubro 08, 2009

Um dia para chamar de meu!

Eu sou muito estranha, ou melhor, autêntica! Gosto de me deitar em cima da mesinha de cabeceira ao lado do sofá para assistir os seriados estrangeiros. Adoro o som de uma língua enrolada. Tenho tara pelo pote de torradas. Também aventuro-me em outros paladares, diferente da ração nossa de cada dia: descobri manga e cenoura cozida, muito bom!

E por falar nos meus gostos tem: Ah, a chuva! Pingos grosso e sem caráter que caem no jardim e formam poças, deixam a grama molhada e o meu pelo todo grudento! Eu adoro a chuva. Aquele cheiro de cachorro molhado que se conhece à distancia me anuncia quando volto para dentro de casa. Depois, as minhas pegadas na lajota encerada me denunciam. É, pessoal, Bebelily chegou. Esbaforida, até mesmo porque chuva cansa como praia, me dirijo até a cozinha e nado no pote de água, uma vez que não consigo sorver a água delicademente. Travo uma luta com a água, bebo, mordo, me molho, saio da batalha pingando pelo chão, mais um rastro. Perfeito! Agora que estou desgrenhada do jeito que eu gosto posso me atirar no sofá branco.

Hoje é dia de rainha! Lá vem mamãe com a brincadeira mais divertida do mundo. Impressionante como ela ignora toda a minha aparência de cão imundo, isso deve ser amor de mãe, aposto. Vermelho, verde, amarelo e laranja, quase uma aquarela. As cores enfileiradas. Depois, as cores embaralhadas: verde, amarelo, laranja e vermelho. Quisera eu poder comer todas essas cores e ficar colorida. Mas só posso escolher uma. Sinto o cheiro de todas elas, cada cor é um sabor: cenoura, fígado, espinafre e leite. Minha boquinha é pequena, embora a minha gula seja enorme. Não tem jeito terei que escolher um dos biscoitos. Minha mãe se diverte, tentando descobrir minhas preferências, mas não sigo uma ordem lógica, comeria todos se tivesse oportunidade. Faria trapaças. Mas não dá. Terei que esperar a segunda rodada, a noite promete!

quinta-feira, outubro 01, 2009

Roubei, é meu!

Área limpa. Finalmente consegui ter acesso ao Bebelices. Foram meses de tentativas frustradas. Mas agora a Lily foi ao médico e a casa é minha, pelo menos pelos próximos 30 minutos. Para quem não me conhece eu sou o Floc, um Lhaso Apso. Teclo devagar, pois não tenho intimidade com esse teclado luminoso. Eu não nasci aqui no Vale dos Esquilos. Vim do Sul, morava numa casa com mamãe e papai em Florianópolis. Era filho único. Lembro de quando papai me levava para passear na minha coleira azul. Bons tempos. Como eu era feliz! Pois é, casal de jovens, uma vida inteira pela frente. Não tenho o que reclamar: amor e carinho nunca me faltaram. O futuro para mamãe era promissor: trabalhar na China! Papai mal acabaria a faculdade, iria para lá, ficar com ela. E, eu cuidaria da casa.

No entanto, não foi bem assim, fui mandado para casa da tia da minha mãe, em Petrópolis, região serrana do Rio de Janeiro. Não nesses termos "mandado". Fui convidado a ficar lá até que mamãe pudesse resolver as coisas na China e voltar para tocar a vida no Brasil. Nos primeiros três meses, eu ainda esperava a volta dela. As notícias chegavam via Skype, a vida lá ia bem e o trabalho só aumentava. Preciso falar que o meu temperamento mudou? Tornei-me um cão estressado e extremamente carente. Num primeiro momento, atacava as canelas dos desconhecidos, e depois, implorava por carinho.

Com quatro meses de casa, um ser muito especial entrou na minha vida, a Lily. Uma bolinha de pelo andante que queria tirar sarro da minha cara. A deixei me fazer de gato e sapato. Era bom ter amigos. Era muito bom tê-la. Ela me diverte. Gosta de tudo que está comigo. Se eu estou comendo de um lado da vasilha, você pode apostar que é nesse mesmo lado que ela vai querer comer. Se eu estiver brincando com o disco verde, ela vai querer brincar com o disco. A vida dela é isso: me imitar.

Os seis meses se transformaram em um ano. Fui ficando. De emprestado fui me tornando parte da casa. E, nisso passaram-se 3 anos e meio… opsss, preciso ir, a madame chegou! Quando conseguir outra brecha, conto mais um pouco da minha história.

Medos

Quando era criança você certamente deve ter ouvido inúmeras vezes de seus pais: “Comporte-se, ou o homem do saco vem te pegar!”... “Cuidado com o Bicho Papão, ele adora crianças rebeldes.” ... No meu caso, como sou muito arteira, mamãe me conta a história dos cachorros da beira da estrada. Segundo ela, cachorros maus e indisciplinados são deixados na estrada, e acabam, sendo aplastados no asfalto por algum pneu de caminhão. É por isso, que quando ela me coloca no carro do banho eu morro de medo de terminar na estrada.

Tuitando ou Twittando - parte I

Minha caixa de e-mail vive cheia. Lotada de jornalistas querendo me entrevistar, outros querendo fazer um perfil. Mas minha agenda está fechada, não quero abrir mão da minha paz. Posto meus textos aqui por simples prazer. No entanto, um e-mail especial me fez aceitar o desafio desse post. Os criadores do Twitter, aquela rede social, me pediram para simular como seria um dia meu no Twitter. Vamos ver como vou me sair....



07h20: Pessoal, acordei! Ainda estou um pouco preguiçosa. Vou ficar um pouco mais na cama.


07h40: Hora do meu "banho de gato". E, uma desculpa para fazer barulho para mamãe acordar.


07h58: Possuo tédio! Todos dormem! Floc, o cheio de sono, nem se mexe!


08h08: Adoro quando a hora "repete" o minuto. Me concentro para fazer um pedido.


08h11: Mais tédio! Hora de zaralhar e fazer ruídos para acordar o pessoal. Vamos começar pelos grunhidos.


08h12: Está fazendo efeito. Mamãe se mexe na cama. Hora do ataque! Subo na cama e faço o corpinho estirado da mamãe de passarela.


08h13: Me instalo entre ela e Janjão, o meu pai na forma de urso. Hummm esse aconchego dá um soninho.


08h45: Tirei uma soneca que foi interrompida pelo telefonema de papai. Mas, pelo menos, mamãe gosta quando ele a acorda. E lá se foi ela para o computador.


08h47: O Floc, o cheio de sono acorda!


08h49: Hora de um mini passeio pelo jardim, ops, banheiro.


08h55: Estaria na hora do meu remedinho? Olho fixo para mamãe e com a força do pensamento tento fazer com que ela se lembre de tirar aquela fatia de presunto da geladeira, embalar o comprimidinho... hummmm


08h58: Sem chance. Ela está se desmanchando para o papai via MSN. Ê que saco! "Pai vai trabalhar!"


09h20: Estardalhaço total. Eu e Floc estamos eufóricos, o pão chegou! Vamos Floc, para a fila do pão!


09h22: "Bebelily, mamãe está chamando!" Ela realmente se supera! Tem que me chamar na hora do meu pão? Uma vez na fila do pão, ou eu ganho naquela hora, ou eu não ganho!


09h23: Perdi o meu pão! MaUUUUU humor supremo! Argh!


09h34: Uma vitória! Consegui "seduzir" o meu pão. Eu e meus olhares!


09h46: Hora da soneca nos pés da vovó.


11h00: O dia já pode começar!


11h12: Sessão "Beauty and Care" com a mamãe. Escova daqui, puxa dali. Desembola acolá. Ai, mão, aí não, deixa minha orelhinha fora dessa guerra.... Por favor, passa o outro lado da escova, é macio!


11h15: NÃAAAOOO! O pente fino não! Papai socorro! Liga para mamãe! Interrompa esse ato insano! Sr. LG Shine 970 ME toque alguma coisa, fala! Alguma coisa acontece por favor!


11h22: Derrotada! Cansada! Entregue! Tudo, menos desarrumada!


11h36: Um passeio pelo jardim. Aproveito para conversar com os passantes da rua. Lato incessantemente, até ficar rouca para ser mais exata.


11h40: Sede, muita sede! Não sei se notaram, mas eu sou uma cadelinha muito intensa. Eu tenho muita sede, muita fome, muito tudo.


11h54: Livros abertos sobre a mesa. Mamãe estudando, ou pelo menos fingindo. Amo deitar em cima deles, mas eles têm que estar abertos.


11h55: Vejo o movimento da casa de cima da mesa. O Floc, coitado, que não tem permissão para subir fica só me observando.


11h59: Vovó está espumando de raiva. Paulo foi "recontaminado" pela gripe suína. Ah, me poupe! Nem eu, um exímio ser vivo de quatro patas e pelos, caio nessa! É cada um que aparece nesse Vale dos Esquilos.


12h00: Metade do dia. Possuo mais tédio!


12h21: Contemplo a vida ao ar livre. Deitada na varanda da sala. Vozes, muitas vozes, ruídos, céu azul. E, é claro, o cheirinho de cozinha em funcionamento, desperta o buraco dentro de mim. Me sinto vazia. Tenho fome! Muita fome!


12h43: E não é que passeando pelo jardim eu não encontrei "A Tobias", o felino forasteiro que adotou a minha casa, tomando sol no meu deck da minha piscina. Quanto abuso! (Percebam, além de intensa, sou possessiva também!)


12h44: Tomada por um impulso, persigo o gato. A gente se embola. A multidão, composta apenas por mamãe, vibra. E um grito parece vir do útero: "Lily, Lily". Sou amada pela torcida, sou a favorita! Só dá eu! Um golpe de esquerda, outro de direita, recuo, me defendo. Parto para o contra-ataque.


12h45: O combate continua! A multidão de uma só voz se aproxima cada vez mais enfurecida. Tenho que ser rápida! Êxtase! Clímax! Adrenalina! De repente, minhas patinhas saem do chão, flutuo no ar. Ganhei super poderes. Agora sou a "Super Bebelily"


12h46: Aciono o meu golpe final. Meu corpo não obedece, e cada vez sinto-me mais distante do chão. Ainda estou quente, raivosa, enfurecida com o felino forasteiro. Estou praticamente voando! O que está acontecendo?


12h48: Era mamãe me levando para dentro de casa. Ou seja, mais uma tentativa frustrada de ser a heroina super poderosa. E, óbvio, junto com mamãe, vem o puxão de orelha: "Bebelily, quantas vezes eu já disse para você não... blá blá blá.."


13h00: Hora de descanso!

quarta-feira, setembro 30, 2009

Tomar um banho de chuva

Uma lua que mais parecia sol, no céu negro e cintilante de estrelas. Certeza que o dia seguinte seria daqueles: azulão, sem nuvens e um sol radiante. Praia. Piscina. Passeio ao ar livre. Calor. Sorvete, ou melhor gelo. Humm.. Tudo de bom! (Já contei para vocês a minha tara por gelo?)

Da varanda do quarto da minha avó, tia Jahder olhava aquele cenário de filme. Num primeiro momento achei que estivesse contemplando as estrelas. Mas depois ela começou a se lamentar como que numa prece: "muda tempo, muda tempo, entra frente fria, a porta está aberta, estrelas se apaguem, lua se cale, vamos, vamos mude tudo". Recitou mantras, fez dança da chuva, se jogou no chão, conversou, implorou, chorou. Não entendia o porquê de tanta praga para que o dia nascesse moribundo, chuvoso, sem um palmo de visibilidade. Um lado bom disso tudo, pelo menos formariam poças pelo jardim.

A resposta para tanto desespero estava num tal de peeling, um recurso de beleza para retirar células mortas e afins. Em outras palavras, você vai à praia e pega um sol daqueles, sem protetor solar e fica descascando, certo? Só que no caso dela, ela nem precisou pisar na areia, nem ver o sol. Passaram nos braços e nas pernas dela uma mistura com ácidos, deixaram até queimar e depois ela ficou trocando de pele por dias a fio. Só que nesse processo o sol não pode nem chegar perto. Daí o questionamento: "Como eu vou colocar uma blusa de manga curta? No calor do Rio terei que usar calças! Ah, meu vestido novo, não vou poder usar tão cedo." Os lamentos eram tantos que no final das contas fiz a dança da chuva, conversei com a lua e pedi para o tempo mudar também! Um dia de chuva não seria nada mal, hein? Muda tempo, muda...

terça-feira, setembro 15, 2009

Lily Cultura

Mamãe descobriu os Audiobooks ou quem preferir Áudiolivro. As palavras sairam do livro e foram parar num CD. A história virou música. Nessa nova aventura conheci a ilustríssima Clarice Lispector (se mamãe é fã, eu também sou), uma ucrâniana, naturalizada brasileira, que veio dar brilho à nossa literatura.
Ah, Macabéa, você me dá nos nervos. Eu sou mais esperta do que você, sabia!? Você é burra, insossa, um nada! Mas, ao mesmo, tempo, consegue ser tudo! Essa sua ambiguidade me incomoda! Acho que depois farei uma tese sobre você, descobrirei não só a hora; mas o minutos e segundos da "A hora da Estrela"! Vou "reouvir"*, os discos e fazer um estudo! (*Sim, sou neologista, agora! Não aceito críticas! Não existe reler? Pois então criei uma palavra para o mundo do som).
Depois, mamãe resolveu ouvir uma velha chata, a tal da Lya Luft. Talvez eu esteja exagerando quando a chamo de chata, o adjetivo correto seria insuportável. Ela não deve entender nada sobre fuçar o jardim, latir a esmo, abanar o rabo ou vibrar com o pote de torrada. Não posso negar que aprendi alguma coisa com a Sra. Luft: a partir de hoje não darei mais perdão a ninguém, apenas anistia. Concordei quando ela falou que perdão tinha um sentido muito religioso.
Recentemente, terminamos "O Vendedor de Sonhos", do Augusto Cury. Muito bom! Se fosse graduar por patinhas, ele ganharia cinco! O Augusto, íntimo meu, coloca umas frases pequenas, mas cheios de significados que nos faz pensar. Por exemplo: A crítica fere, o preconceito aniquila! Uma bela frase de efeito, que eu guardei para dividir aqui com vocês. Nas minhas tardes na varanda, fiquei pensando nesse livro e o que eu seria naquele contexto: Uma vendedora de sonhos? Uma seguidora? Não sei, minha imaginação ainda não infartou, sigo ainda grávida de idéias. Se eu fosse uma vendedora de sonhos, alguém além do Floc me seguiria?

domingo, setembro 06, 2009

Momento Serenata de Amor


Um papelzinho amarelo amassado na mesa de centro da sala me aguça. A sala está vazia. A oportunidade era perfeita. Dou uma volta ao redor da mesinha. Ninguém chega. Dou outra volta. Continuo só. Calculo o bote e rememorando os tempos em que mamãe era criança, murmuro em meu pensamento aquela brincadeira de roda: "O lencinho está na mão, ele cai ou não. (Uma volta). O lencinho está na mão, ele cai ou não. (Duas voltas). Ele já caiu, ele já caiu (e o bote perfeito)." Era meu, o papelzinho amarelo era meu, estava na minha boca, e cheirava tão bem. Carreguei o meu troféu para o meu esconderijo secreto: o pelo de urso do jardim.

Cuidadosamente abri o papelzinho, era uma embalagem de bombom, Serenata de Amor. Alguém já tinha comido o chocolate e fiquei só na vontade. Mas continuei explorando a embalagem com o focinho e eis que me deparo com algumas frases bem interessantes (Para aqueles que não me conhecem sou uma Shih Tzu letrada, adoro as palavras e a cadência delas até formar um sentido).


- Ciúme exagerado não tem nada a ver com amor. Tem a ver com posse. E, se o parceiro fosse sua propriedade, no mínimo teria que pagar IPTU.


- (Essa é para você mamãe) Uma pessoa que sofre de amor platônico pensa em sua paixão 24 horas por dia. Sabe por que? Porque o dia só tem 24 horas.


Até o próximo bombom!

sábado, setembro 05, 2009

Próxima Dose


Observo o movimento do jardim pelas treliças da sacada do quarto da vovó. Borboletas, flores, brisas... Vou além, tento acompanhar a rua pelo mesmo buraquinho indiscreto da treliça. Não consigo focar. Esforço-me para identificar de quem seriam os passos do outro lado do muro, caminhando pela calçada. Vida que segue. Calmaria. Um carro sobe a rua. Calmaria. Vovó no computador e Floc na cadeira de balanço. Calmaria. Ah, será que já estaria na hora? Faltaria muito para a minha próxima dose? Suspiro, e mais uma vez, calmaria.


Meus ouvidos aguçados me colocam em alerta: a porta da geladeira se abre. Corro para cozinha. No entanto, não há o segundo tranco do compartimento frio - de onde sai o meu presunto. É, definitivamente não era hora. Chego à sala em passos desinteressados. Olho para mamãe. Ela nem me nota. Mais calmaria. Solto uns grunhidos embalados por uma espreguiçada de gato. Pronto! Mamãe me notou! Ela olharia para o relógio e lembraria que era hora da pílula.


Um frenesi de teclas orquestravam quase uma sonata. Daqui a pouco, rufariam os tambores - só se fosse do meu estômago. Mamãe estava no computador. Nada mais estava tão calmo assim. Consegui contato visual. Rolei pelo chão, fiz graça, me insinuei. E então, música para os meus ouvidos:


- Bebelily, está fazendo farra, é?


Era tudo o que eu queria. A atenção de mamãe. Prontamente, me coloquei de pé e acionei a função espanador - isso para nós caninos é fundamental, agradar o dono. Deu certo. Ela deixou de lado aquele emaranhado de teclas e se dirigiu para a cozinha. Fui atrás, cada passo que eu dava, aumentava as batidas do meu coração, estava em êxtase, iria ganhar mais uma dose. Já podia sentir o cheirinho do presunto. O gostinho dele escorregando goela abaixo.


Eis que então, minha amada mãe abre a geladeira, fico eufórica. Nem escuto o "tclec" do compartimento frio, para mim já estava certo. Mexe daqui, mexe dali, já fico derretida no chão da cozinha. Não sabia olhar as horas, mas eu sabia que aquela era a hora do meu remédinho. Meu rabo ainda na função espanador, varria as migalhas de pão do chão da cozinha. A minha alegria era tanta que resolvi fechar os olhos e me fazer uma surpresa, naquele estilo: abra a boca e feche os olhos. Eu sempre gostei dessa brincadeira. De olhos ainda fechados, ouço a porta da geladeira se fechar. E eu lá, como uma adolescente esperando o primeiro beijo, se não tivesse um focinho tão achatado acho que faria até biquinho. Dois segundos depois, nada acontecia. Resolvi abrir os olhos, mamãe já saia pelo corredor com um copo d'água nas mãos.


Cabisbaixa, com rabinho entre as pernas, volto para o meu posto de observação. Agora vejo mariposas, flores murchas e ventania. O computador da vovó se infectou com um vírus raríssimo e o Floc caiu da cadeira. E, eu agora, sou pura amargura. Oh vida! Oh ceús! por que eu? Por que mamãe faz isso comigo? Ela vai ver, não faço mais festa! Não faço mais chamego! Não durmo mais nos pés dela! Não me aconchego mais nos braços dela! E, também, é claro, não vou conseguir fazer tudo isso!! Os passos de mamãe interropem os meus lamentos. Fico séria, finjo que não é comigo. Como o combinado não me animo, fico apática, finjo que durmo. Mas ela insiste em atrapalhar a falsidade do meu sono:


- Lily, Lilynha, Bebelily...


Farejo presunto. Eram meus comprimidos. Faço birra. Me faço de desentendida. Ela vira as costas e vai embora. Pronto, dei uma lição nela, pensei. A vida ganha cor novamente. Consigo ver borboletas, flores, brisas e um gostinho de vitória. Aquele gostinho de papa fina. Hummmm. Quando seria a próxima dose?

Golpe de má sorte

Estou doente! Depois de 2 anos e 10 meses de vida, fiquei doente! Uma batalha com um felino estrangeiro, forasteiro, nômade, sem pai e sem mãe, que decidiu invadir o meu espaço. Enfim, foi um golpe de esquerda, outro de direita, e aí! Ela me acertou! Sinto um incômodo na vista, abafado pelo meu estresse, pela minha fúria!
Mamãe me pega e me leva para dentro. Sem saber que eu tinha sido ferida. A excitação passou, me acalmei depois de generosas goladas d'água e me refastelei na lajota fresca. Novamente, o incômodo. Maldito cisco, penso eu. Que sensação ruim de areia nos olhos. Me debato, me esfrego no chão. Nada resolve, ninguém me nota. Ao meu redor, tudo fica embaraçado e embaçado. Uma irritação sem fim, só com começo. Rolo de um lado para o outro. Fico amoada. Sem vontade de brincar. Sem vontade de latir. Uma Shih Tzu sem vontade.

Chega mamãe e sua voz de veludo que me arrepiam os pelos (pelo novo Acordo Ortográfico essa palavra perde o acento diferencial e empobrece a minha narrativa! - Desabafo):

- Bebelily, Lily, vem mamãe!

Argh! Que saco! Ela não me deixa em paz! Vai me sacudir toda. Vou fingir não é comigo. Mas é inevitável isso quando se trata de minha querida mamadi. Passos se aproximam. É ela.

- Pituquinha da mamãe, ô coisa rica! Está aí escondida, é?

Quisera eu ter um quarto para poder me trancar. Ih, mamãe, você está estranha, está sem foco. Mamãe me examina toda, ainda sem saber do golpe. Faz carinho, me pega no colo e brinca comigo. Faço um esforço para retribuir qualquer graça. De repente, mamãe sai, fico aliviada, me deixou em paz. Tudo mentira, ela descobriu o meu segredo e foi correndo contar para minha avó.
- O olho da Lily está estranho!

Eureka! Mamãe! Pensei que não fosse me notar! Sim, meu olhinho sorava e estava todo remelento. A prova do crime foi um rastro de unha, fiquei marcada para o resto da vida. Fiquei dois dias no soro fisiológico na esperança de ficar boa logo. No entanto, as coisas só pioravam, só conseguia ver a vida passar com um olho. Angustiante!

Mamãe teve que ir visitar meu pai, que acabara de retornar do mar. Fiquei aos cuidados de minha avó. Que só pensava no siricutico que mamãe daria ao retornar e ver que meu olho já estava azul. Fui levada às pressas para o veterinário. Ele pingou umas gotas ardentes nos meus olhos, disse ele que foi para fazer contraste. É, eu estava com uma lesão no olho. Caso gravíssimo, por pouco não viro a cadela do capitão gancho, com um olho só.

A cura estava numa pomada milagrosa, e a melhor parte do tratamento foi um remédinho manipulado que vinha acompanhado de presunto, frango, carne... E quando conseguia, até cuspia a pilulazinha para ganhar mais uma dose de papa-fina.

Paulo, o disseminador

Segunda-feira, nas primeiras horas da manhã, lá estava ele com roupa de trabalho. Era o Paulo, o faz tudo aqui de casa. Não era dia de verão e nem estava quente, mas ele estava limpando a piscina. Podia sentir a língua dele coçando para dar uma notícia à mamãe. Eu sabia que ele precisava dividir aquele diagnóstico com alguém. Talvez a doença faria dele uma pessoa mais importante. Talvez fosse carente de cuidados. Talvez fosse um chato. Enfim, mas que graça teria levar aquela boa nova de volta para casa?

Mamãe ainda dormia em pé. Eu e Floc saimos em disparada para visitar o gramado. Fizemos uma ronda na casa em menos de um minuto! Voltamos e mamãe continuava no mesmo lugar, no deck da piscina, se acostumando com a claridade. Ela estava cansada, triste e com o celular na mão. Enquanto isso, a língua do Paulo continuava a coçar dentro da boca. Ele queria falar!

Eu e Floc saimos mais uma vez para os cumprimentos matinais àquele homem de idade avançada, maltrapilho e manco. Foi no meu riso, na minha altivez, na minha energia pulsante que ele encontrou a oportunidade para comunicar a minha mãe a boa nova. Ela, por sua vez, acompanhou a cena com cautela, com medo que a boca do Floc fechasse na canela do Paulo - cá entre nós o Floc não gosta dele. Temerosa também caso eu encontrasse o felino que quase me cegou (cenas do próximo capítulo). Até que ela resolveu sair do estado semi vegetativo em que se encontrava a beira da piscina e gritou firme:
- Lily e Floc, vamos embora!

Foi nessa frase que o segredo do Paulo se revelou:
- Isso, tira eles daqui, ou eles vão pegar gripe suína! (sic)

Uma pausa... Quase virei de barriguinha para cima para rir, ou melhor, para rolar de rir. Garanto que mamãe faria o mesmo, se não tivesse que manter a seriedade requisitada pela ocasião. Aí ele continuou cheio de propriedade:
- A doutora disse que eu sou um caso suspeito. É para eu evitar ambientes fechados e dentro de alguns dias ela vai confirmar se estou com a gripe ou nao...

À mamãe só coube a seguinte colocação:
- É, eu também estou com isso...
Virou as costas e saiu.

Mais tarde, na mesa de café da manhã, vovó estava enfurecida com o quadro clínico do funcionário:
- Ele é da moda. Dengue ele já teve não sei quantas vezes. Gripe aviária, inclusive. A doença não pode ganhar manchete de jornal que ele está pegando.

Aqui em casa as coisas funcionam assim: o Paulo é o faz tudo (pinta parede, descarrega as compras do carro, limpa a piscina e manca). Está aqui há 20 anos, veio para pintar a porta de um armário da cozinha e se estabeleceu. Deveria trabalhar de segunda a sexta, mas sempre capenga um dia ou dois, para a felicidade da minha avó.
Ele até que gosta de mim, me chama de Lilica ou Jeriquinha, este último é meio brega para uma cadela do meu porte, mas eu finjo que gosto. Antes de mamãe me colocar na "van" do banho, ele me fazia companhia no banco de trás enquanto ela dirigia.