
Observo o movimento do jardim pelas treliças da sacada do quarto da vovó. Borboletas, flores, brisas... Vou além, tento acompanhar a rua pelo mesmo buraquinho indiscreto da treliça. Não consigo focar. Esforço-me para identificar de quem seriam os passos do outro lado do muro, caminhando pela calçada. Vida que segue. Calmaria. Um carro sobe a rua. Calmaria. Vovó no computador e Floc na cadeira de balanço. Calmaria. Ah, será que já estaria na hora? Faltaria muito para a minha próxima dose? Suspiro, e mais uma vez, calmaria.
Meus ouvidos aguçados me colocam em alerta: a porta da geladeira se abre. Corro para cozinha. No entanto, não há o segundo tranco do compartimento frio - de onde sai o meu presunto. É, definitivamente não era hora. Chego à sala em passos desinteressados. Olho para mamãe. Ela nem me nota. Mais calmaria. Solto uns grunhidos embalados por uma espreguiçada de gato. Pronto! Mamãe me notou! Ela olharia para o relógio e lembraria que era hora da pílula.
Um frenesi de teclas orquestravam quase uma sonata. Daqui a pouco, rufariam os tambores - só se fosse do meu estômago. Mamãe estava no computador. Nada mais estava tão calmo assim. Consegui contato visual. Rolei pelo chão, fiz graça, me insinuei. E então, música para os meus ouvidos:
- Bebelily, está fazendo farra, é?
Era tudo o que eu queria. A atenção de mamãe. Prontamente, me coloquei de pé e acionei a função espanador - isso para nós caninos é fundamental, agradar o dono. Deu certo. Ela deixou de lado aquele emaranhado de teclas e se dirigiu para a cozinha. Fui atrás, cada passo que eu dava, aumentava as batidas do meu coração, estava em êxtase, iria ganhar mais uma dose. Já podia sentir o cheirinho do presunto. O gostinho dele escorregando goela abaixo.
Eis que então, minha amada mãe abre a geladeira, fico eufórica. Nem escuto o "tclec" do compartimento frio, para mim já estava certo. Mexe daqui, mexe dali, já fico derretida no chão da cozinha. Não sabia olhar as horas, mas eu sabia que aquela era a hora do meu remédinho. Meu rabo ainda na função espanador, varria as migalhas de pão do chão da cozinha. A minha alegria era tanta que resolvi fechar os olhos e me fazer uma surpresa, naquele estilo: abra a boca e feche os olhos. Eu sempre gostei dessa brincadeira. De olhos ainda fechados, ouço a porta da geladeira se fechar. E eu lá, como uma adolescente esperando o primeiro beijo, se não tivesse um focinho tão achatado acho que faria até biquinho. Dois segundos depois, nada acontecia. Resolvi abrir os olhos, mamãe já saia pelo corredor com um copo d'água nas mãos.
Cabisbaixa, com rabinho entre as pernas, volto para o meu posto de observação. Agora vejo mariposas, flores murchas e ventania. O computador da vovó se infectou com um vírus raríssimo e o Floc caiu da cadeira. E, eu agora, sou pura amargura. Oh vida! Oh ceús! por que eu? Por que mamãe faz isso comigo? Ela vai ver, não faço mais festa! Não faço mais chamego! Não durmo mais nos pés dela! Não me aconchego mais nos braços dela! E, também, é claro, não vou conseguir fazer tudo isso!! Os passos de mamãe interropem os meus lamentos. Fico séria, finjo que não é comigo. Como o combinado não me animo, fico apática, finjo que durmo. Mas ela insiste em atrapalhar a falsidade do meu sono:
- Lily, Lilynha, Bebelily...
Farejo presunto. Eram meus comprimidos. Faço birra. Me faço de desentendida. Ela vira as costas e vai embora. Pronto, dei uma lição nela, pensei. A vida ganha cor novamente. Consigo ver borboletas, flores, brisas e um gostinho de vitória. Aquele gostinho de papa fina. Hummmm. Quando seria a próxima dose?

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