domingo, novembro 30, 2008

Curtas: Em tempos de crise

Aproveito os dias chuvosos para ficar dentro de casa lendo os pedaços de jornais que ficam espalhados pelo chão para simular um banheirinho para nós caninos. Sou uma cadela intelectual, minha vida não é apenas rondar pelo jardim e dar blitz em gatos e esquilos, eu me informo.

Neste processo de contemplação ao jornal constato que não há um dia que não se leia a palavra crise. É crise de personagens no novo livro de Paul Auster. Retrancas relembram crises históricas como a de 1929, a de 1973 do petróleo, a do real, a do dólar, a energética… É tanta crise que eu acaba tendo uma crise existencial! Aff

Vocês humanos são muito complicados, mas seremos eternamente dependente de vocês. Eu, pelo menos quero ser. Quero vida boa, ração “papa fina” e uma boa poltrona de sofa para eu me acabar de dormir.

Ao meu redor: Mamãe

Mulher tinhosa e carinhosa. Tem uma vida agitada. Ela não gosta muito de ficar parada. É um entra e sai na casa. E ela faz questão que a cada entrada eu faça festa. Leva a vida pagando penitência, como uma maruja no meio de uma tempestade num copo de água.

Na hora de me escolher não aceitou ofertas dos meus outros irmãos. Nem se importou em conferir se eu tinha quatro patas, duas orelhas ou dois olhos. Me viu exilada no berçario – por opção, mal sabia que eu achava meus irmãos um pé no saco. Deve ter sentido pena de mim. Tão pequena, tão indefesa, deixada de lado pelos irmãos. Não titubeou, apontou para mim e disse: quero aquela. E a partir daquele momento não teve nada que a fizesse mudar de idéia. Eu era dela e ela era minha. A partir daquele dia eu assumiria o compromisso de ser chamada de 10 de 10 minutos por uma vozinha irritante, mas ao mesmo tempo, confortante. Pituxinha da mamãe, Pitucão, BebeLily, Lilynha, LILY – pelo menos não caio na rotina nos chamados de 10 em 10 minutos...


sábado, novembro 29, 2008

Curtas: Capitão no Parque


Meu dito pai me contou a história de um tal Capitão Nascimento que tem dentro de cada um de nós. Quando a gente come, ele diz que a comida são os aspiras entrando para um novo treinamento. Cabe ao capitão selecionar os mais aptos para fazerem bem ao nosso organismo – leia-se vitaminas, nutrientes e afins. Os que não se encaixam nesta categoria, aos poucos desistem do complexo treino. Impaciente com os molengas, Capitão Nascimento, grita: Pede para sair, Pede para sair. E essa movimentação da desistência deles faz a minha barriga doer e tenho que usar o banheiro. Mas sabem como é, né, banheiro de cachorro é bem subjetivo. Estava eu, no meu primeiro passeio pelo Parque Cremerie, com a minha tia e mamãe. Me deliciando com o verde e bichos estranhos. Ai o Capitão Nascimento começou a agir. Tive que usar o gramado do parque como banheiro...

Ao meu redor: Papai

Levei dois anos para aprender a falar papai. Mamãe está de namorado, noiva, quase casada. Ele insiste para que eu o chame de pai. Pesquisei essa palavra no dicionário. Discuti o assunto com o Floc - o Lhasa Apso com quem compartilho os meus dias. Estou cabreira. Nao sei bem o que isso quer dizer?

Será que é mais uma pessoa para falar que eu tenho que tomar banho? Minha mãe e minha avó já desempenham esse papel muito bem. Será que é mais uma mão para me escovar e tirar os meus nós? Isso seria castigo Basta tia Ina e mamãe. Pode ser que papai venha para quebrar o protocolo, me tratar feito princesa e me cobrir de torradinhas e brinquedos.

A Saga de Bebelily VII: A porta estava...

Do hall de entrada, deito nas lajotas cuidadosamente enceradas e observo o movimento da casa. O quarto da minha avó, sempre de portas abertas com o bebedouro de fauna e afins. O quarto do meu tio sempre trancado e sem interesse. Mas o quarto da minha bisavó é a minha tara.

Depois de fuçar pelo jardim, passo a maior parte do meu tempo encarando aquela porta e repetindo mentalmente: Abra-te Sésamo. Tento ver se com o jargão de Silvio Santos convenço a porta e invoco animadamente: “E vamos abrir a porta da esperança.”. Sem sucesso. Após várias tentativas frustradas a mente fica cansada. É preciso desopilar. Vou até o portão para ver o movimento. Horário bom. Crianças indo para a escola. Tento me comunicar com elas. Lato feito uma desesperada. Mas elas não me dão bola. Corro para cima, corro para baixo. Repito a operação. Fico exausta. Volto para dentro de casa e eis a minha surpresa: a porta do quarto proibido está aberta. Desenfreada, tenho a sensação de invadir o quarto. Quando chego no climax, no pote de ração da Jacira – a gata da minha bisavó - vem uma voz lá de longe: Lilynha, mamae está chamando. Era a mesma voz inconveniente que tirou Narizinho do Reino das Águas Claras no mundo mágico de Monteiro Lobato. Ou que despertou Alice quando explorava o País das Maravilhas. E que me tirou também do quarto de Quinquilharias…

Não me dou por vencida. Na hora do almoço reforço a guarda no quarto da minha bisavó, pois é a hora do frango real da princesa Juçara. Ele sai da cozinha desfiado, cheiroso e gostoso num pires de prata. Atravessa a sala, passa pelo hall e é colocado na vasilha de ouro da princesa.

A porta abre, meu estômago vibra de esperança. A porta fecha, meu mundo acaba. Cadê o pó do pirlimpimpim para fazer a transposição do meu ser para dentro da vasilha de frango? Será que os sapatinhos de Dorothy caberiam nas minhas patinhas peludas? Ah, eu com a varinha mágica de Harry Potter…

Quantos detalhes têm aquele quarto proibido. Vários brinquedinhos. Várias distrações. A felina é doceira de primeira, prepara uns chocolates finos na bandeja de areia. Delícia. Ninguém gosta dessa iguaria, só eu. E quando me pegam prestigiando a Juçara é uma gritaria só. Minha mãe fala que aquilo é coisa do demônio e purifica minha boca com água e sabão. Outras pessoas me olham com nojo. Só a Yrles – minha bisavó - me lança um olhar de paisagem e pergunta: Estava gostoso, nenem?

Uma lufada de vento me desgrenha o dorso. Que ventarola descabida! Olho de soslaio para a porta. Ela estava entreaberta. O coração disparou. Fui em direção a ela. Era o momento de meter o fucinho, empurrar a fresta que restava porta e invadir. Mas já era tarde. Não havia chocolates finos, nem frango, nem nada… É, talvez estar vivo seja isso, espreitar os momentos que morrem…

quinta-feira, novembro 27, 2008

Sob nova direção

Agora esse Blog é meu. E estou arrumando ele do meu jeito. Os textos da minha mãe eram muito amargurados. Peço paciência aos meus leitores e leitoras para que deixem eu arrumar a casa. De novidade, só o quadro do Mukito. Boa leitura! Em breve, novidades.