Do hall de entrada, deito nas lajotas cuidadosamente enceradas e observo o movimento da casa. O quarto da minha avó, sempre de portas abertas com o bebedouro de fauna e afins. O quarto do meu tio sempre trancado e sem interesse. Mas o quarto da minha bisavó é a minha tara.
Depois de fuçar pelo jardim, passo a maior parte do meu tempo encarando aquela porta e repetindo mentalmente: Abra-te Sésamo. Tento ver se com o jargão de Silvio Santos convenço a porta e invoco animadamente: “E vamos abrir a porta da esperança.”. Sem sucesso. Após várias tentativas frustradas a mente fica cansada. É preciso desopilar. Vou até o portão para ver o movimento. Horário bom. Crianças indo para a escola. Tento me comunicar com elas. Lato feito uma desesperada. Mas elas não me dão bola. Corro para cima, corro para baixo. Repito a operação. Fico exausta. Volto para dentro de casa e eis a minha surpresa: a porta do quarto proibido está aberta. Desenfreada, tenho a sensação de invadir o quarto. Quando chego no climax, no pote de ração da Jacira – a gata da minha bisavó - vem uma voz lá de longe: Lilynha, mamae está chamando. Era a mesma voz inconveniente que tirou Narizinho do Reino das Águas Claras no mundo mágico de Monteiro Lobato. Ou que despertou Alice quando explorava o País das Maravilhas. E que me tirou também do quarto de Quinquilharias…
Não me dou por vencida. Na hora do almoço reforço a guarda no quarto da minha bisavó, pois é a hora do frango real da princesa Juçara. Ele sai da cozinha desfiado, cheiroso e gostoso num pires de prata. Atravessa a sala, passa pelo hall e é colocado na vasilha de ouro da princesa.
A porta abre, meu estômago vibra de esperança. A porta fecha, meu mundo acaba. Cadê o pó do pirlimpimpim para fazer a transposição do meu ser para dentro da vasilha de frango? Será que os sapatinhos de Dorothy caberiam nas minhas patinhas peludas? Ah, eu com a varinha mágica de Harry Potter…
Quantos detalhes têm aquele quarto proibido. Vários brinquedinhos. Várias distrações. A felina é doceira de primeira, prepara uns chocolates finos na bandeja de areia. Delícia. Ninguém gosta dessa iguaria, só eu. E quando me pegam prestigiando a Juçara é uma gritaria só. Minha mãe fala que aquilo é coisa do demônio e purifica minha boca com água e sabão. Outras pessoas me olham com nojo. Só a Yrles – minha bisavó - me lança um olhar de paisagem e pergunta: Estava gostoso, nenem?
Uma lufada de vento me desgrenha o dorso. Que ventarola descabida! Olho de soslaio para a porta. Ela estava entreaberta. O coração disparou. Fui em direção a ela. Era o momento de meter o fucinho, empurrar a fresta que restava porta e invadir. Mas já era tarde. Não havia chocolates finos, nem frango, nem nada… É, talvez estar vivo seja isso, espreitar os momentos que morrem…

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