sexta-feira, novembro 30, 2007

Saga de Bebelily III: ré confessa


A lista de reclamações era grande. Minha tia Virgínia sugeriu colocar um quadro negro na entrada da casa só com as minhas ocorrências para que quando a minha mãe chegasse visse o que eu estava aprontando. Minha avó interferiu, disse que um quadro negro seria pouco.

O que incitou a minha fase de rebeldia foi quando a minha avó disse que iria me colocar de dieta. Fiquei ansiosa queria comer tudo que nunca tive vontade. Ué gente é como uma mulher em dieta, qual é o preconceito: é só porque eu tenho quatro patas?

Comecei subindo na mesa da sala para pegar torradinha, depois ia para a outra mesa da sala de jantar e subia na cadeira para esperar a torradinha de algum comensal - era educada. Daí, começaram a controlar a minha quantidade de torradas. Meu tio proibiu.

Então, como uma shih tzu selvagem resolvi me rebelar. Subia na mesa sozinha enquanto os membros das casa estavam recolhidos na siesta. Muitas vezes minha avó me pegou em cima da mesa da sala de jantar deitada, contemplando a paisagem enquanto degustava um queijo minas esquecido ou um saco de pão. Que mico quando me pegavam em flagrante! Abanava o rabinho em tom de travessura de cachorro. Tentava fazer uma estripulia, mas era em vão, o esporro comia solto.

As reclamações chegavam até a minha mãe via telefonia celular. Mas ela nada fazia... achava graça, podia ouvir as risadas do outro lado da linha e a frase clichê, " é mesmo mãe, a Lily fez isso?".

Com a proximidade do Natal, o pessoal da casa fez uma conferência para saber a localização da árvore de natal. Essa movimentação toda por minha causa. Foi um verdadeiro evento regado a vinho e champagne. Até a posição e a altura dos enfeites foram tópicos de discussão. Estavam com medo que eu derrubasse a árvore inteira por causa de uma bola dourada. Realmente, confesso que é tentador. No último Natal não pude mostrar as minhas habilidades. Eu era muito pequena. O máximo que fiz foi tirar um enfeite de uma estrela. Nem era uma bola, eu ficava de olho grande nelas. Sentadinha no pé da árvore, lançava o meu olhar mais sedutor e esperava que elas caíssem como maças. Mas era um gasto de energia em vão.

Outro tema muito debatido foi onde colocar os presentes. Antes de eu vir para este lar eles ficavam no chão. Para vocês terem uma noção no último Natal eu nem conseguia subir no sofá, era quase um bebe de colo. Minha mãe comprou presente para mim, colocou na árvore e ela queria que eu descobrisse qual era o meu pacote. Missão impossível só faltou o Tom Cruise aqui.

Enfim, cresci, tempos modernos, já sou uma mocinha, tenho um aninho. Mesmo com o comportamento indevido fiz a minha lista de natal: quero não tomar banho por 6 meses, quero que a fábrica de torradinhas me indenize com muitos pacotes até o final da minha vida, quero brinquedos novos - os meus já estão nojentos, quero uma cuba inteira de gelo só para mim...

Enquanto eu fazia tudo isso, o Floc - meu companheiro Lhasa Apso, chorava por não conseguir infringir as regras... e assim me dedurava para o lar do Vale dos Esquilos. Infelizmente esse tal de Floc não aceita subornos. É, ele teve criação sulista. Não sabe brincar

Cenas do próximo capítulo: Irei contar a história de Garfield, quero dizer, da Nina, uma gata vira-lata, velha e preguiçosa que se acha deus e que teve um sopro de tormento quando eu - Lily Bin Laden, entrei na vida dela.

quinta-feira, novembro 08, 2007

A Saga de Bebelily II: Queridos, cheguei


O caminho até a minha casa definitiva foi longo. Cruzei o Rio de Janeiro inteiro. Subi a Serra e cheguei aos alpes. Esse trajeto pode ter influenciado para sempre a minha personalidade. No carro, queria morder o volante. Se a minha mãe pudesse, teria colocado o cinto de segurança em mim, mas em vez disso, me colocou num tal de Lilymóvel – um engradado coberto com saco plástico, alguns cueiros, fraldinhas de nenem e brinquedinhos.

Enquanto minha mãe trabalhava, meu tio cuidou de mim. Minhas primeiras horas de contato com ele já me renderam o apelido de trator. Ele não queria brincar comigo. Então mostrei toda a minha auto-suficiência. Sai pela casa arrastando uma mala. Quando minha mãe voltou do trabalho a lista de reclamações era grande. Já era noite quando cheguei na casa da minha avó – minha atual residência.

Fui recebida com um abraço gostoso de vó. Meus outros tios me lançaram um olhar de interrogação. Vi também um brinquedo gigante branco, era peludo e se mexia – era o Floc, um lhasa apso filhinho de papai. Ele queria me cheirar, mas minha mãe ficou resistente, com medo que ele me mordesse ou me fizesse algum mal. Tão pronto ela me colocou no chão, me arrebitei toda, abanei o rabinho e danei a corer pela casa com o meu novo brinquedo de vontade própria. Era divertido, saia pela casa arrastada na orelha ou no rabo dele. Não dava sossego. Quando ele queria distância, subia no sofá, pois sabia que eu não conseguia. Só consegui subir no sofá quando completei mais ou menos 6 meses.

Deram-me o nome de Lily. Gostei e fiquei aliviada quando soube das outras possibilidades. Milady. Lady. Não tinham nada a ver comigo. Na minha primeira noite no meu novo lar tive insônia. Acordei cedo e queria brincar. Minha mãe mesmo dormindo brincava comigo. Tinha uma coleção de brinquedos de invejar qualquer canino. Tudo cor de rosa. Entretanto, trocava qualquer um deles por um bom pé de meia ou uma folhinha seca no jardim.

Corria pela casa como um porquinho da India. Não gostava de colo, nem de apertos. Meu negócio era a terra, o jardim e o pêlo de urso. Fui contra tudo o que minha avó e minha mãe pesquisaram. Não era calma, tampouco tranquila. Tinha e tenho gostos esquisitos: chocolatinho de gato, pedras de gelo e beber água da mangueira. Ah, tem também uma flor no jardim que eu adoro. Nunca vi o Jorge Tadeu depois de come-la, a única vez que me deu onda, foi quando fui levada às pressas para a clínica veterinária, entalada. Fora isso, nada demais.

Meu lema com o Floc é disputar e concorrer. Somos tão amigos que quando entrei no cio nem quis me relacionar com ele. Confesso que ele ficou magoado. Mas não teve química. Minha mãe podia comprar dois brinquedos ou dar dois biscoitos: um para mim e outro para ele. Não adiantava, eu queria tudo que estivesse na boca dele. Depois que ele largava, perdia a graça.

Sou espivitada, alegre, brincalhona e implicante. Só não estou inquieta na hora que durmo. Sempre carrego algo na boca. Minha avó ralha comigo. Quando ela tira o cochilo da tarde aproveito para arrastar as sandálinhas dela pela casa. Não as destruo, apenas carrego. A destruição fica a cargo do meu amigo e parceiro Floc – by the way, formamos uma bela dupla, enquanto eu roubo, ele destrói. É uma excelente parceria. A gente corre pela casa, tem horas que quase derrubamos a bisa no chão, fazemos terrorismo. Ela se segura nas paredes de forma tão engraçada.

Sou boa praça. Das poucas vezes que saio na rua penso que todo mundo é meu amigo. Mas até ir para a rua é um sofrimento. Me tremo toda. Ouvir a chave do carro e logo depois minha mãe me chamando é fria. Finjo que não escuto, me escondo, mas ela sempre me acha e lá vou eu em direção ao banho. Quieta, cabisbaixa, me tremo toda. Nem parece que sou eu. Teve uma vez, numa dessas sessões de banho, que fiquei indignada. Briguei com a minha mãe. Briga feia. Não falei com ela quando foi me buscar, nem abanei o rabo. Em casa, prossegui o meu voto de silêncio. Fiz festa para todos, menos para ela. Ela tentou me comprar com torradinhas – que eu adoro. Como foi difícil resistir. Mas segui a minha dieta estrita, apenas ração e água. Percebi que era inevitável lutar, fazer pirraça e sacrificar as minhas torradinhas: cedi as tentações. E comi a torradinha.

Cenas do próximo capítulo: Ai Ai, minha avó diz que estou gorda. Quer me colocar de dieta.