terça-feira, setembro 02, 2008

A Saga de Bebelily VI: Solidão é castigo



Não sei contar as horas. Tampouco sei o que elas significam. Só sei o que é saudade. A casa nunca esteve vazia por tanto tempo. Acho que nunca passei uma noite da minha existência sem a presença da minha mãe ou da minha avó. Ficar sem as duas vai fazer de mim, daqui para frente, uma cadela com uma falha no caráter.

Continuo não sabendo contar as horas, mas sei que elas passam. O dia começa quando o sol nasce. Eu adoro o sol. Ele deixa o quintal mais atraente. Bichanos alados passeiam pelo meu jardim. Fuçam as minhas flores. No entanto, eu nem cobro pedágio para isso. Fico deitada na pedra, tomando banho de sol e contemplando as borboletas, os pássaros, os mini-insetos-insignificantes.

Quando alguém da família acorda, retorno as minhas funções básicas de cachorro: abano o rabo e faço festa, na tentativa de ganhar algum pedaço de pão remanescente do café da manhã. Com a minha bisavó essa tática é sucesso garantido.

Enfim, minha avó mal chegou de viagem e já arrumou as malas novamente para passar o aniversário num lugar chamado Búzios. Percebi a movimentação de malas e fui ficando tristinha, triste e tristezona. Para piorar a situação minha mãe também fez as malas. Que dó! Ela foi relutante, não queria me deixar para trás. Minha avó disse que era melhor eu ficar em casa, caso contrário meu bumbum empinado iria ganhar o bredo e ir embora areia afora.

Confesso que minha mãe ponderou comigo. Ela me contou que seria uma longa viagem de carro – eu odeio ficar 30 minutos dentro do carro, quiças 3 horas e pouca. Já fiquei receosa desse lugar distante.

Outro argumento foi que para conter a minha vocação de cadela explorer, eu teria que ficar sempre na coleira – eu tenho ojeriza a esse treco que prende no peito e tem uma corda. Imagina eu ter que ficar na minha coleira cor-de-rosa de pequeno alcance? Meu fim social. Isso com certeza entraria no hall dos meus pesadelos mais medonhos – soou ambíguo, mas faço questão de usar a estrutura para enfatizar.

Como eu iria ver o mar amarrada? E se eu gostasse e quisesse pegar a onda? E se eu tivesse medo e quisesse fugir dali? De receosa fiquei desanimada. Minha avó tinha aberto exceção só para eu ir. Como poderia abandonar o meu companheiro de todas as horas para trás? Ele já sofreu na partida delas, imagina ficar sem mim.

Minutos antes, em protesto, ele entrou no carro e se enfiou atrás do banco do carona. Foi difícil demovê-lo da idéia. Cada pessoa que tentava tirá-lo do carro, recebia como resposta uma rosnada ou um sorriso amarelo de cachorro raivoso - naquele momento ele seria capaz de morder, ele estava desesperado. Tentaram me usar como isca, chamando o meu nome e me oferecendo vários pacotes de torradinhas e pães. De nada adiantou. Minha avó tentou de todas as formas: da carinhosa à “vem aqui seu puto”.

Meu tio veio com uma toalha para fazer uma espécie de chicote. Foi em vão. Ele só saiu dali com a minha mãe. Ela chegou com jeitinho, chamou-o, pegou-o carinhosamente no colo e levou-o para dentro de casa. E, dali, elas partiram.

Pensei que fossem voltar quando a noite caísse. Fiquei esperando. Dormi, acordei, dormi, acordei e nenhum sinal delas. Teriam ido à uma festa? Teria acontecido alguma coisa? Eu estava triste e preocupada.

Um novo dia chegou e nada delas. A casa funcionava normalmente. Os empregados seguiam o cotidiano mas faltava elas. Passou a hora do almoço e nada. Mais uma noite sem a minha mãe e minha avó. Quanta tristeza! Essa casa está entendiante. Chata. Parada. Sem ninguém para eu poder dormir nos pés. Sem quase ninguém para reclamar dos meus latidos – só o meu tio que pernoita por aqui, isto é, quando dá o ar da graça.

Um barulho lá fora interrompeu os meus pensamentos. O portão eletrônico se abria, um jeito diferente de pisar no jardim se aproximava da porta da frente. Fiquei em alerta no sofá, latia, rosnava, latia e rosnava. Quem seria aquela hora da noite? Por que demorava tanto a entrar em casa? Entre latidos e rosnados fareijava a origem daquele ser. Já estava pronta para dar o bote, morder a canela. A porta se abriu. O bote furou com o meu rabo que abanava sem parar: era a mamãe para tirar a solidão que era o meu coração.

A Saga de Bebelily V: A viagem


Um movimento estranho tomou conta da casa. Minha avó entrou em dieta. Começou a sair mais e a receber uma amiga baixinha e de voz engraçada, que vez ou outra solta um “Puta que o pariu”. A conversa também mudava. Os aborrecimentos e reclamações davam lugar a devaneios e reflexões sobre Pequim, Tóquio e Dubai. Estas últimas palavras nem fazem parte do meu vernáculo canino. O que seria Pequim? Uma espécie de cão da raça pequinês? E Dubai? Um elefante branco? Ah, meu sonho é conhecer um elefante branco. Mas por enquanto, posso dizer que conheci um esquilo de nome Godofredo. Não é muito, mas é um esquilo, que acabou perdendo a vida nas garras da Gilsandra. Pobre Godofredo!

Enfim, na casa a conversa era única, parecia até que os assuntos do mundo haviam se esgotado: tudo girava em torno da viagem da minha avó. Ela passaria um mês fora e visitaria meu tio no Japão e minha tia na China – a mãe do Floc. Sugeriram até colocá-lo na mala. Só de pensar nisso, me deu um aperto no peito. Como ficaria sem o meu companheiro fiel? Nós somos como irmãos, unha, carne e pêlo. Não podiam nos separar. Já estava até escondendo os documentos dele para que não fizessem seu passaporte. Escondi tão bem, que ele acabou não embarcando.

Na ausência de minha avó ficou decidido que minha mãe assumiria a administração do lar, minha tia Vivi se mudaria para cá, minha tia Jader subiria do Rio assim que pudesse e eu e Floc cuidaríamos da integridade da casa. Durante a gestão da minha mãe os empregados quase enlouqueceram. Mas tudo entrou no ritmo que deveria ser.

Uma semana antes da minha avó viajar, a Nina teve uns probleminhas de saúde. Foi para clínica veterninária e nunca mais voltou. Minha mãe disse que a colocaram para dormir para sempre. Confesso que a graça do meu dia diminuiu um pouco. Mas encontrei uma substituta a altura, só que essa é mais astuta: é a Gilsandra, que também atende por Jacira – uma gata vira-lata longelínea da minha bisa – a assassina do Godofredo.

Tudo se confirmou numa segunda-feira a noite. Uma mala enorme invadiu o meu habitat – a cama da minha avó – com pilhas e mais pilhas de roupas espalhadas. Eu e meu companheiro Floc iniciamos um protesto velado. Eu me aboletei na mala de mão e o Floc ocupou o topo de uma das pilhas de roupa e lá ficamos. De nada serviu a manifestação. Só conseguimos despertar o riso da família e uma sessão de fotos.

Eu lembro dessas malas grandes e cheias de roupa – contava ao Floc. Lembra do nosso Tio que aparece aqui de vez em nunca, ele vem cheio dessas coisas grandes cheia de roupa dentro. Lembra também quando minha mãe foi viajar. Também usou um desses porta-trecos gigantes. Mas o bom disso tudo, é que eles sempre voltam. A Nina, por exemplo, partiu sem malas e nunca mais voltou. Olhei para o lado e percebi que estava falando sozinha. O Floc já estava roncando e babando.

No dia seguinte, minha avó partiu para uma aventura pelo Oriente. A cama dela ia ser só minha. Eu ia me espalhar de todas as formas. Ia dormir no meio da cama. Ou melhor, seria uma noite itinerante, já que sou pequenininha, iria ocupar todos os espaços da cama. Eu e Floc já tinhamos feito um trato de divisão de cama: eu ocuparia o lado da minha avó e ele o outro lado. Na primeira noite sem a minha avó, a cama foi ocupada pela minha mãe. Mas o mais frustrante ainda, foi na noite seguinte: a cama foi ocupada pela minha mãe e pela minha tia Virginia. Ficamos inconformados – eu e Floc – e resolvemos incomodar.

Os latidos na madrugada eram por minha conta. O Floc se ocupava de importonu-las. Com o seu peso pena, tentava empurrá-las para fora da cama. Caminhava em cima delas. Compramos uma briga arriscada, sem pensar que elas poderiam racionar nossa comida, cessar com a nossa brincadeira ou tirar o nosso sono. Minha tia Vivi foi enérgica quando o Floc a empurrou da cama. "Floc, quando você estiver dormindo eu vou te empurrar também.", dizia ela.

E só por causa dos meus latidos, fui proibida de dormir de dia. Minha mãe ou minha tia quando me encontravam dormindo pela casa me pegavam, me sacolejavam, me empurravam, mas dormir eu não podia. Mesmo assim, durante a noite eu dava os meus latidos a esmo. E o Floc continua no empurra-empurra e assim os dias se passaram.