quarta-feira, setembro 30, 2009

Tomar um banho de chuva

Uma lua que mais parecia sol, no céu negro e cintilante de estrelas. Certeza que o dia seguinte seria daqueles: azulão, sem nuvens e um sol radiante. Praia. Piscina. Passeio ao ar livre. Calor. Sorvete, ou melhor gelo. Humm.. Tudo de bom! (Já contei para vocês a minha tara por gelo?)

Da varanda do quarto da minha avó, tia Jahder olhava aquele cenário de filme. Num primeiro momento achei que estivesse contemplando as estrelas. Mas depois ela começou a se lamentar como que numa prece: "muda tempo, muda tempo, entra frente fria, a porta está aberta, estrelas se apaguem, lua se cale, vamos, vamos mude tudo". Recitou mantras, fez dança da chuva, se jogou no chão, conversou, implorou, chorou. Não entendia o porquê de tanta praga para que o dia nascesse moribundo, chuvoso, sem um palmo de visibilidade. Um lado bom disso tudo, pelo menos formariam poças pelo jardim.

A resposta para tanto desespero estava num tal de peeling, um recurso de beleza para retirar células mortas e afins. Em outras palavras, você vai à praia e pega um sol daqueles, sem protetor solar e fica descascando, certo? Só que no caso dela, ela nem precisou pisar na areia, nem ver o sol. Passaram nos braços e nas pernas dela uma mistura com ácidos, deixaram até queimar e depois ela ficou trocando de pele por dias a fio. Só que nesse processo o sol não pode nem chegar perto. Daí o questionamento: "Como eu vou colocar uma blusa de manga curta? No calor do Rio terei que usar calças! Ah, meu vestido novo, não vou poder usar tão cedo." Os lamentos eram tantos que no final das contas fiz a dança da chuva, conversei com a lua e pedi para o tempo mudar também! Um dia de chuva não seria nada mal, hein? Muda tempo, muda...

terça-feira, setembro 15, 2009

Lily Cultura

Mamãe descobriu os Audiobooks ou quem preferir Áudiolivro. As palavras sairam do livro e foram parar num CD. A história virou música. Nessa nova aventura conheci a ilustríssima Clarice Lispector (se mamãe é fã, eu também sou), uma ucrâniana, naturalizada brasileira, que veio dar brilho à nossa literatura.
Ah, Macabéa, você me dá nos nervos. Eu sou mais esperta do que você, sabia!? Você é burra, insossa, um nada! Mas, ao mesmo, tempo, consegue ser tudo! Essa sua ambiguidade me incomoda! Acho que depois farei uma tese sobre você, descobrirei não só a hora; mas o minutos e segundos da "A hora da Estrela"! Vou "reouvir"*, os discos e fazer um estudo! (*Sim, sou neologista, agora! Não aceito críticas! Não existe reler? Pois então criei uma palavra para o mundo do som).
Depois, mamãe resolveu ouvir uma velha chata, a tal da Lya Luft. Talvez eu esteja exagerando quando a chamo de chata, o adjetivo correto seria insuportável. Ela não deve entender nada sobre fuçar o jardim, latir a esmo, abanar o rabo ou vibrar com o pote de torrada. Não posso negar que aprendi alguma coisa com a Sra. Luft: a partir de hoje não darei mais perdão a ninguém, apenas anistia. Concordei quando ela falou que perdão tinha um sentido muito religioso.
Recentemente, terminamos "O Vendedor de Sonhos", do Augusto Cury. Muito bom! Se fosse graduar por patinhas, ele ganharia cinco! O Augusto, íntimo meu, coloca umas frases pequenas, mas cheios de significados que nos faz pensar. Por exemplo: A crítica fere, o preconceito aniquila! Uma bela frase de efeito, que eu guardei para dividir aqui com vocês. Nas minhas tardes na varanda, fiquei pensando nesse livro e o que eu seria naquele contexto: Uma vendedora de sonhos? Uma seguidora? Não sei, minha imaginação ainda não infartou, sigo ainda grávida de idéias. Se eu fosse uma vendedora de sonhos, alguém além do Floc me seguiria?

domingo, setembro 06, 2009

Momento Serenata de Amor


Um papelzinho amarelo amassado na mesa de centro da sala me aguça. A sala está vazia. A oportunidade era perfeita. Dou uma volta ao redor da mesinha. Ninguém chega. Dou outra volta. Continuo só. Calculo o bote e rememorando os tempos em que mamãe era criança, murmuro em meu pensamento aquela brincadeira de roda: "O lencinho está na mão, ele cai ou não. (Uma volta). O lencinho está na mão, ele cai ou não. (Duas voltas). Ele já caiu, ele já caiu (e o bote perfeito)." Era meu, o papelzinho amarelo era meu, estava na minha boca, e cheirava tão bem. Carreguei o meu troféu para o meu esconderijo secreto: o pelo de urso do jardim.

Cuidadosamente abri o papelzinho, era uma embalagem de bombom, Serenata de Amor. Alguém já tinha comido o chocolate e fiquei só na vontade. Mas continuei explorando a embalagem com o focinho e eis que me deparo com algumas frases bem interessantes (Para aqueles que não me conhecem sou uma Shih Tzu letrada, adoro as palavras e a cadência delas até formar um sentido).


- Ciúme exagerado não tem nada a ver com amor. Tem a ver com posse. E, se o parceiro fosse sua propriedade, no mínimo teria que pagar IPTU.


- (Essa é para você mamãe) Uma pessoa que sofre de amor platônico pensa em sua paixão 24 horas por dia. Sabe por que? Porque o dia só tem 24 horas.


Até o próximo bombom!

sábado, setembro 05, 2009

Próxima Dose


Observo o movimento do jardim pelas treliças da sacada do quarto da vovó. Borboletas, flores, brisas... Vou além, tento acompanhar a rua pelo mesmo buraquinho indiscreto da treliça. Não consigo focar. Esforço-me para identificar de quem seriam os passos do outro lado do muro, caminhando pela calçada. Vida que segue. Calmaria. Um carro sobe a rua. Calmaria. Vovó no computador e Floc na cadeira de balanço. Calmaria. Ah, será que já estaria na hora? Faltaria muito para a minha próxima dose? Suspiro, e mais uma vez, calmaria.


Meus ouvidos aguçados me colocam em alerta: a porta da geladeira se abre. Corro para cozinha. No entanto, não há o segundo tranco do compartimento frio - de onde sai o meu presunto. É, definitivamente não era hora. Chego à sala em passos desinteressados. Olho para mamãe. Ela nem me nota. Mais calmaria. Solto uns grunhidos embalados por uma espreguiçada de gato. Pronto! Mamãe me notou! Ela olharia para o relógio e lembraria que era hora da pílula.


Um frenesi de teclas orquestravam quase uma sonata. Daqui a pouco, rufariam os tambores - só se fosse do meu estômago. Mamãe estava no computador. Nada mais estava tão calmo assim. Consegui contato visual. Rolei pelo chão, fiz graça, me insinuei. E então, música para os meus ouvidos:


- Bebelily, está fazendo farra, é?


Era tudo o que eu queria. A atenção de mamãe. Prontamente, me coloquei de pé e acionei a função espanador - isso para nós caninos é fundamental, agradar o dono. Deu certo. Ela deixou de lado aquele emaranhado de teclas e se dirigiu para a cozinha. Fui atrás, cada passo que eu dava, aumentava as batidas do meu coração, estava em êxtase, iria ganhar mais uma dose. Já podia sentir o cheirinho do presunto. O gostinho dele escorregando goela abaixo.


Eis que então, minha amada mãe abre a geladeira, fico eufórica. Nem escuto o "tclec" do compartimento frio, para mim já estava certo. Mexe daqui, mexe dali, já fico derretida no chão da cozinha. Não sabia olhar as horas, mas eu sabia que aquela era a hora do meu remédinho. Meu rabo ainda na função espanador, varria as migalhas de pão do chão da cozinha. A minha alegria era tanta que resolvi fechar os olhos e me fazer uma surpresa, naquele estilo: abra a boca e feche os olhos. Eu sempre gostei dessa brincadeira. De olhos ainda fechados, ouço a porta da geladeira se fechar. E eu lá, como uma adolescente esperando o primeiro beijo, se não tivesse um focinho tão achatado acho que faria até biquinho. Dois segundos depois, nada acontecia. Resolvi abrir os olhos, mamãe já saia pelo corredor com um copo d'água nas mãos.


Cabisbaixa, com rabinho entre as pernas, volto para o meu posto de observação. Agora vejo mariposas, flores murchas e ventania. O computador da vovó se infectou com um vírus raríssimo e o Floc caiu da cadeira. E, eu agora, sou pura amargura. Oh vida! Oh ceús! por que eu? Por que mamãe faz isso comigo? Ela vai ver, não faço mais festa! Não faço mais chamego! Não durmo mais nos pés dela! Não me aconchego mais nos braços dela! E, também, é claro, não vou conseguir fazer tudo isso!! Os passos de mamãe interropem os meus lamentos. Fico séria, finjo que não é comigo. Como o combinado não me animo, fico apática, finjo que durmo. Mas ela insiste em atrapalhar a falsidade do meu sono:


- Lily, Lilynha, Bebelily...


Farejo presunto. Eram meus comprimidos. Faço birra. Me faço de desentendida. Ela vira as costas e vai embora. Pronto, dei uma lição nela, pensei. A vida ganha cor novamente. Consigo ver borboletas, flores, brisas e um gostinho de vitória. Aquele gostinho de papa fina. Hummmm. Quando seria a próxima dose?

Golpe de má sorte

Estou doente! Depois de 2 anos e 10 meses de vida, fiquei doente! Uma batalha com um felino estrangeiro, forasteiro, nômade, sem pai e sem mãe, que decidiu invadir o meu espaço. Enfim, foi um golpe de esquerda, outro de direita, e aí! Ela me acertou! Sinto um incômodo na vista, abafado pelo meu estresse, pela minha fúria!
Mamãe me pega e me leva para dentro. Sem saber que eu tinha sido ferida. A excitação passou, me acalmei depois de generosas goladas d'água e me refastelei na lajota fresca. Novamente, o incômodo. Maldito cisco, penso eu. Que sensação ruim de areia nos olhos. Me debato, me esfrego no chão. Nada resolve, ninguém me nota. Ao meu redor, tudo fica embaraçado e embaçado. Uma irritação sem fim, só com começo. Rolo de um lado para o outro. Fico amoada. Sem vontade de brincar. Sem vontade de latir. Uma Shih Tzu sem vontade.

Chega mamãe e sua voz de veludo que me arrepiam os pelos (pelo novo Acordo Ortográfico essa palavra perde o acento diferencial e empobrece a minha narrativa! - Desabafo):

- Bebelily, Lily, vem mamãe!

Argh! Que saco! Ela não me deixa em paz! Vai me sacudir toda. Vou fingir não é comigo. Mas é inevitável isso quando se trata de minha querida mamadi. Passos se aproximam. É ela.

- Pituquinha da mamãe, ô coisa rica! Está aí escondida, é?

Quisera eu ter um quarto para poder me trancar. Ih, mamãe, você está estranha, está sem foco. Mamãe me examina toda, ainda sem saber do golpe. Faz carinho, me pega no colo e brinca comigo. Faço um esforço para retribuir qualquer graça. De repente, mamãe sai, fico aliviada, me deixou em paz. Tudo mentira, ela descobriu o meu segredo e foi correndo contar para minha avó.
- O olho da Lily está estranho!

Eureka! Mamãe! Pensei que não fosse me notar! Sim, meu olhinho sorava e estava todo remelento. A prova do crime foi um rastro de unha, fiquei marcada para o resto da vida. Fiquei dois dias no soro fisiológico na esperança de ficar boa logo. No entanto, as coisas só pioravam, só conseguia ver a vida passar com um olho. Angustiante!

Mamãe teve que ir visitar meu pai, que acabara de retornar do mar. Fiquei aos cuidados de minha avó. Que só pensava no siricutico que mamãe daria ao retornar e ver que meu olho já estava azul. Fui levada às pressas para o veterinário. Ele pingou umas gotas ardentes nos meus olhos, disse ele que foi para fazer contraste. É, eu estava com uma lesão no olho. Caso gravíssimo, por pouco não viro a cadela do capitão gancho, com um olho só.

A cura estava numa pomada milagrosa, e a melhor parte do tratamento foi um remédinho manipulado que vinha acompanhado de presunto, frango, carne... E quando conseguia, até cuspia a pilulazinha para ganhar mais uma dose de papa-fina.

Paulo, o disseminador

Segunda-feira, nas primeiras horas da manhã, lá estava ele com roupa de trabalho. Era o Paulo, o faz tudo aqui de casa. Não era dia de verão e nem estava quente, mas ele estava limpando a piscina. Podia sentir a língua dele coçando para dar uma notícia à mamãe. Eu sabia que ele precisava dividir aquele diagnóstico com alguém. Talvez a doença faria dele uma pessoa mais importante. Talvez fosse carente de cuidados. Talvez fosse um chato. Enfim, mas que graça teria levar aquela boa nova de volta para casa?

Mamãe ainda dormia em pé. Eu e Floc saimos em disparada para visitar o gramado. Fizemos uma ronda na casa em menos de um minuto! Voltamos e mamãe continuava no mesmo lugar, no deck da piscina, se acostumando com a claridade. Ela estava cansada, triste e com o celular na mão. Enquanto isso, a língua do Paulo continuava a coçar dentro da boca. Ele queria falar!

Eu e Floc saimos mais uma vez para os cumprimentos matinais àquele homem de idade avançada, maltrapilho e manco. Foi no meu riso, na minha altivez, na minha energia pulsante que ele encontrou a oportunidade para comunicar a minha mãe a boa nova. Ela, por sua vez, acompanhou a cena com cautela, com medo que a boca do Floc fechasse na canela do Paulo - cá entre nós o Floc não gosta dele. Temerosa também caso eu encontrasse o felino que quase me cegou (cenas do próximo capítulo). Até que ela resolveu sair do estado semi vegetativo em que se encontrava a beira da piscina e gritou firme:
- Lily e Floc, vamos embora!

Foi nessa frase que o segredo do Paulo se revelou:
- Isso, tira eles daqui, ou eles vão pegar gripe suína! (sic)

Uma pausa... Quase virei de barriguinha para cima para rir, ou melhor, para rolar de rir. Garanto que mamãe faria o mesmo, se não tivesse que manter a seriedade requisitada pela ocasião. Aí ele continuou cheio de propriedade:
- A doutora disse que eu sou um caso suspeito. É para eu evitar ambientes fechados e dentro de alguns dias ela vai confirmar se estou com a gripe ou nao...

À mamãe só coube a seguinte colocação:
- É, eu também estou com isso...
Virou as costas e saiu.

Mais tarde, na mesa de café da manhã, vovó estava enfurecida com o quadro clínico do funcionário:
- Ele é da moda. Dengue ele já teve não sei quantas vezes. Gripe aviária, inclusive. A doença não pode ganhar manchete de jornal que ele está pegando.

Aqui em casa as coisas funcionam assim: o Paulo é o faz tudo (pinta parede, descarrega as compras do carro, limpa a piscina e manca). Está aqui há 20 anos, veio para pintar a porta de um armário da cozinha e se estabeleceu. Deveria trabalhar de segunda a sexta, mas sempre capenga um dia ou dois, para a felicidade da minha avó.
Ele até que gosta de mim, me chama de Lilica ou Jeriquinha, este último é meio brega para uma cadela do meu porte, mas eu finjo que gosto. Antes de mamãe me colocar na "van" do banho, ele me fazia companhia no banco de trás enquanto ela dirigia.