Estou doente! Depois de 2 anos e 10 meses de vida, fiquei doente! Uma batalha com um felino estrangeiro, forasteiro, nômade, sem pai e sem mãe, que decidiu invadir o meu espaço. Enfim, foi um golpe de esquerda, outro de direita, e aí! Ela me acertou! Sinto um incômodo na vista, abafado pelo meu estresse, pela minha fúria!
Mamãe me pega e me leva para dentro. Sem saber que eu tinha sido ferida. A excitação passou, me acalmei depois de generosas goladas d'água e me refastelei na lajota fresca. Novamente, o incômodo. Maldito cisco, penso eu. Que sensação ruim de areia nos olhos. Me debato, me esfrego no chão. Nada resolve, ninguém me nota. Ao meu redor, tudo fica embaraçado e embaçado. Uma irritação sem fim, só com começo. Rolo de um lado para o outro. Fico amoada. Sem vontade de brincar. Sem vontade de latir. Uma Shih Tzu sem vontade.
Chega mamãe e sua voz de veludo que me arrepiam os pelos (pelo novo Acordo Ortográfico essa palavra perde o acento diferencial e empobrece a minha narrativa! - Desabafo):
- Bebelily, Lily, vem mamãe!
Argh! Que saco! Ela não me deixa em paz! Vai me sacudir toda. Vou fingir não é comigo. Mas é inevitável isso quando se trata de minha querida mamadi. Passos se aproximam. É ela.
- Pituquinha da mamãe, ô coisa rica! Está aí escondida, é?
Quisera eu ter um quarto para poder me trancar. Ih, mamãe, você está estranha, está sem foco. Mamãe me examina toda, ainda sem saber do golpe. Faz carinho, me pega no colo e brinca comigo. Faço um esforço para retribuir qualquer graça. De repente, mamãe sai, fico aliviada, me deixou em paz. Tudo mentira, ela descobriu o meu segredo e foi correndo contar para minha avó.
- O olho da Lily está estranho!
Eureka! Mamãe! Pensei que não fosse me notar! Sim, meu olhinho sorava e estava todo remelento. A prova do crime foi um rastro de unha, fiquei marcada para o resto da vida. Fiquei dois dias no soro fisiológico na esperança de ficar boa logo. No entanto, as coisas só pioravam, só conseguia ver a vida passar com um olho. Angustiante!
Mamãe teve que ir visitar meu pai, que acabara de retornar do mar. Fiquei aos cuidados de minha avó. Que só pensava no siricutico que mamãe daria ao retornar e ver que meu olho já estava azul. Fui levada às pressas para o veterinário. Ele pingou umas gotas ardentes nos meus olhos, disse ele que foi para fazer contraste. É, eu estava com uma lesão no olho. Caso gravíssimo, por pouco não viro a cadela do capitão gancho, com um olho só.
A cura estava numa pomada milagrosa, e a melhor parte do tratamento foi um remédinho manipulado que vinha acompanhado de presunto, frango, carne... E quando conseguia, até cuspia a pilulazinha para ganhar mais uma dose de papa-fina.
sábado, setembro 05, 2009
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