Segunda-feira, nas primeiras horas da manhã, lá estava ele com roupa de trabalho. Era o Paulo, o faz tudo aqui de casa. Não era dia de verão e nem estava quente, mas ele estava limpando a piscina. Podia sentir a língua dele coçando para dar uma notícia à mamãe. Eu sabia que ele precisava dividir aquele diagnóstico com alguém. Talvez a doença faria dele uma pessoa mais importante. Talvez fosse carente de cuidados. Talvez fosse um chato. Enfim, mas que graça teria levar aquela boa nova de volta para casa?
Mamãe ainda dormia em pé. Eu e Floc saimos em disparada para visitar o gramado. Fizemos uma ronda na casa em menos de um minuto! Voltamos e mamãe continuava no mesmo lugar, no deck da piscina, se acostumando com a claridade. Ela estava cansada, triste e com o celular na mão. Enquanto isso, a língua do Paulo continuava a coçar dentro da boca. Ele queria falar!
Eu e Floc saimos mais uma vez para os cumprimentos matinais àquele homem de idade avançada, maltrapilho e manco. Foi no meu riso, na minha altivez, na minha energia pulsante que ele encontrou a oportunidade para comunicar a minha mãe a boa nova. Ela, por sua vez, acompanhou a cena com cautela, com medo que a boca do Floc fechasse na canela do Paulo - cá entre nós o Floc não gosta dele. Temerosa também caso eu encontrasse o felino que quase me cegou (cenas do próximo capítulo). Até que ela resolveu sair do estado semi vegetativo em que se encontrava a beira da piscina e gritou firme:
- Lily e Floc, vamos embora!
Foi nessa frase que o segredo do Paulo se revelou:
- Isso, tira eles daqui, ou eles vão pegar gripe suína! (sic)
Uma pausa... Quase virei de barriguinha para cima para rir, ou melhor, para rolar de rir. Garanto que mamãe faria o mesmo, se não tivesse que manter a seriedade requisitada pela ocasião. Aí ele continuou cheio de propriedade:
- A doutora disse que eu sou um caso suspeito. É para eu evitar ambientes fechados e dentro de alguns dias ela vai confirmar se estou com a gripe ou nao...
À mamãe só coube a seguinte colocação:
- É, eu também estou com isso...
Virou as costas e saiu.
Mais tarde, na mesa de café da manhã, vovó estava enfurecida com o quadro clínico do funcionário:
- Ele é da moda. Dengue ele já teve não sei quantas vezes. Gripe aviária, inclusive. A doença não pode ganhar manchete de jornal que ele está pegando.
Aqui em casa as coisas funcionam assim: o Paulo é o faz tudo (pinta parede, descarrega as compras do carro, limpa a piscina e manca). Está aqui há 20 anos, veio para pintar a porta de um armário da cozinha e se estabeleceu. Deveria trabalhar de segunda a sexta, mas sempre capenga um dia ou dois, para a felicidade da minha avó.
Ele até que gosta de mim, me chama de Lilica ou Jeriquinha, este último é meio brega para uma cadela do meu porte, mas eu finjo que gosto. Antes de mamãe me colocar na "van" do banho, ele me fazia companhia no banco de trás enquanto ela dirigia.
sábado, setembro 05, 2009
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