
Um movimento estranho tomou conta da casa. Minha avó entrou em dieta. Começou a sair mais e a receber uma amiga baixinha e de voz engraçada, que vez ou outra solta um “Puta que o pariu”. A conversa também mudava. Os aborrecimentos e reclamações davam lugar a devaneios e reflexões sobre Pequim, Tóquio e Dubai. Estas últimas palavras nem fazem parte do meu vernáculo canino. O que seria Pequim? Uma espécie de cão da raça pequinês? E Dubai? Um elefante branco? Ah, meu sonho é conhecer um elefante branco. Mas por enquanto, posso dizer que conheci um esquilo de nome Godofredo. Não é muito, mas é um esquilo, que acabou perdendo a vida nas garras da Gilsandra. Pobre Godofredo!
Enfim, na casa a conversa era única, parecia até que os assuntos do mundo haviam se esgotado: tudo girava em torno da viagem da minha avó. Ela passaria um mês fora e visitaria meu tio no Japão e minha tia na China – a mãe do Floc. Sugeriram até colocá-lo na mala. Só de pensar nisso, me deu um aperto no peito. Como ficaria sem o meu companheiro fiel? Nós somos como irmãos, unha, carne e pêlo. Não podiam nos separar. Já estava até escondendo os documentos dele para que não fizessem seu passaporte. Escondi tão bem, que ele acabou não embarcando.
Na ausência de minha avó ficou decidido que minha mãe assumiria a administração do lar, minha tia Vivi se mudaria para cá, minha tia Jader subiria do Rio assim que pudesse e eu e Floc cuidaríamos da integridade da casa. Durante a gestão da minha mãe os empregados quase enlouqueceram. Mas tudo entrou no ritmo que deveria ser.
Uma semana antes da minha avó viajar, a Nina teve uns probleminhas de saúde. Foi para clínica veterninária e nunca mais voltou. Minha mãe disse que a colocaram para dormir para sempre. Confesso que a graça do meu dia diminuiu um pouco. Mas encontrei uma substituta a altura, só que essa é mais astuta: é a Gilsandra, que também atende por Jacira – uma gata vira-lata longelínea da minha bisa – a assassina do Godofredo.
Tudo se confirmou numa segunda-feira a noite. Uma mala enorme invadiu o meu habitat – a cama da minha avó – com pilhas e mais pilhas de roupas espalhadas. Eu e meu companheiro Floc iniciamos um protesto velado. Eu me aboletei na mala de mão e o Floc ocupou o topo de uma das pilhas de roupa e lá ficamos. De nada serviu a manifestação. Só conseguimos despertar o riso da família e uma sessão de fotos.
Eu lembro dessas malas grandes e cheias de roupa – contava ao Floc. Lembra do nosso Tio que aparece aqui de vez em nunca, ele vem cheio dessas coisas grandes cheia de roupa dentro. Lembra também quando minha mãe foi viajar. Também usou um desses porta-trecos gigantes. Mas o bom disso tudo, é que eles sempre voltam. A Nina, por exemplo, partiu sem malas e nunca mais voltou. Olhei para o lado e percebi que estava falando sozinha. O Floc já estava roncando e babando.
No dia seguinte, minha avó partiu para uma aventura pelo Oriente. A cama dela ia ser só minha. Eu ia me espalhar de todas as formas. Ia dormir no meio da cama. Ou melhor, seria uma noite itinerante, já que sou pequenininha, iria ocupar todos os espaços da cama. Eu e Floc já tinhamos feito um trato de divisão de cama: eu ocuparia o lado da minha avó e ele o outro lado. Na primeira noite sem a minha avó, a cama foi ocupada pela minha mãe. Mas o mais frustrante ainda, foi na noite seguinte: a cama foi ocupada pela minha mãe e pela minha tia Virginia. Ficamos inconformados – eu e Floc – e resolvemos incomodar.
Os latidos na madrugada eram por minha conta. O Floc se ocupava de importonu-las. Com o seu peso pena, tentava empurrá-las para fora da cama. Caminhava em cima delas. Compramos uma briga arriscada, sem pensar que elas poderiam racionar nossa comida, cessar com a nossa brincadeira ou tirar o nosso sono. Minha tia Vivi foi enérgica quando o Floc a empurrou da cama. "Floc, quando você estiver dormindo eu vou te empurrar também.", dizia ela.
E só por causa dos meus latidos, fui proibida de dormir de dia. Minha mãe ou minha tia quando me encontravam dormindo pela casa me pegavam, me sacolejavam, me empurravam, mas dormir eu não podia. Mesmo assim, durante a noite eu dava os meus latidos a esmo. E o Floc continua no empurra-empurra e assim os dias se passaram.