terça-feira, dezembro 09, 2008

A Saga de Bebelily VIII: Diploma e Capelo

Tenho que demonstrar para vocês a minha profunda decepção com a quarta série do ensino fundamental do colégio da esquina aqui de casa. Todos os dias, não importa o turno, cumprimento-os na ida e na volta da escola. Dou latidos de incentivo. Sou a favor da educação. Crianças educadas, país saudável.

Pois bem, nesta manhã de terça-feira, fui despertada pela animadíssima Ivete Sangalo cantando "Abalou, abalou, Sacudiu, balançou, Coração é só felicidade"... Num primeiro instante pensei que fosse uma das vizinhas recebendo aqueles carros de som enviados pelo namorado - uma breguice só, mas super comum na roça onde moro. Amarrotada que só, fui cambalenado até o portão para tentar descobrir que tumulto era aquele. A rua estava vazia.

Ruídos, fruto de uma gravação precária e música chegavam aos meus ouvidos. Dentre a sequência de hits, o hino nacional. Opa, então se tratava de uma cerimônia. Aplausos para lá, vaias acolá. Que furdunço era aquele antes das 10h! Vozes variadas ao microfone:professoras, responsáveis e as crianças. Várias homenagens. Juntei uma patinha na outra na tentativa de fazer figas: estava esperando o momento eles iriam reconhecer o meu incentivo matinal e iriam me homenagear. Afinal de contas, estive presente todos esses anos na vida desses petizes.

A espera foi longa. Primeiro chamaram os alunos para receberem o diploma - ao todo, 40 alunos. Depois vieram as palavras dos oradores, paraninfos e afins. E nada da minha homenagem. Aleluia, Kenny G e Toquinho foram relembrados no pátio da escolinha. Segui sem nenhuma referência. O ponto alto da tal formatura foi o teatrinho com as crianças cantarolando temas natalinos misturado com Xuxa sem ritmo ou qualquer afinidade.

Ah! Que desastre! Diplomas entregues, hora da boca-livre e mais 20 minutos de espera. Mesmo sem homenagem era hora de ir para o portão cumprimentar os formandos ingratos.


Curtas: Brasileirão

Tem uma música que não sai da minha cabeça e gostaria de compartilhar com vocês. "Chora Vascaíno o Sonho Acabou". Pronto, desabafei. Tudo bem não fomos para a Libertadores. Seria perfeição demais. Mas zoar o Vasco não tem preço! "Chora Vascaíno o Sonho Acabou"

domingo, novembro 30, 2008

Curtas: Em tempos de crise

Aproveito os dias chuvosos para ficar dentro de casa lendo os pedaços de jornais que ficam espalhados pelo chão para simular um banheirinho para nós caninos. Sou uma cadela intelectual, minha vida não é apenas rondar pelo jardim e dar blitz em gatos e esquilos, eu me informo.

Neste processo de contemplação ao jornal constato que não há um dia que não se leia a palavra crise. É crise de personagens no novo livro de Paul Auster. Retrancas relembram crises históricas como a de 1929, a de 1973 do petróleo, a do real, a do dólar, a energética… É tanta crise que eu acaba tendo uma crise existencial! Aff

Vocês humanos são muito complicados, mas seremos eternamente dependente de vocês. Eu, pelo menos quero ser. Quero vida boa, ração “papa fina” e uma boa poltrona de sofa para eu me acabar de dormir.

Ao meu redor: Mamãe

Mulher tinhosa e carinhosa. Tem uma vida agitada. Ela não gosta muito de ficar parada. É um entra e sai na casa. E ela faz questão que a cada entrada eu faça festa. Leva a vida pagando penitência, como uma maruja no meio de uma tempestade num copo de água.

Na hora de me escolher não aceitou ofertas dos meus outros irmãos. Nem se importou em conferir se eu tinha quatro patas, duas orelhas ou dois olhos. Me viu exilada no berçario – por opção, mal sabia que eu achava meus irmãos um pé no saco. Deve ter sentido pena de mim. Tão pequena, tão indefesa, deixada de lado pelos irmãos. Não titubeou, apontou para mim e disse: quero aquela. E a partir daquele momento não teve nada que a fizesse mudar de idéia. Eu era dela e ela era minha. A partir daquele dia eu assumiria o compromisso de ser chamada de 10 de 10 minutos por uma vozinha irritante, mas ao mesmo tempo, confortante. Pituxinha da mamãe, Pitucão, BebeLily, Lilynha, LILY – pelo menos não caio na rotina nos chamados de 10 em 10 minutos...


sábado, novembro 29, 2008

Curtas: Capitão no Parque


Meu dito pai me contou a história de um tal Capitão Nascimento que tem dentro de cada um de nós. Quando a gente come, ele diz que a comida são os aspiras entrando para um novo treinamento. Cabe ao capitão selecionar os mais aptos para fazerem bem ao nosso organismo – leia-se vitaminas, nutrientes e afins. Os que não se encaixam nesta categoria, aos poucos desistem do complexo treino. Impaciente com os molengas, Capitão Nascimento, grita: Pede para sair, Pede para sair. E essa movimentação da desistência deles faz a minha barriga doer e tenho que usar o banheiro. Mas sabem como é, né, banheiro de cachorro é bem subjetivo. Estava eu, no meu primeiro passeio pelo Parque Cremerie, com a minha tia e mamãe. Me deliciando com o verde e bichos estranhos. Ai o Capitão Nascimento começou a agir. Tive que usar o gramado do parque como banheiro...

Ao meu redor: Papai

Levei dois anos para aprender a falar papai. Mamãe está de namorado, noiva, quase casada. Ele insiste para que eu o chame de pai. Pesquisei essa palavra no dicionário. Discuti o assunto com o Floc - o Lhasa Apso com quem compartilho os meus dias. Estou cabreira. Nao sei bem o que isso quer dizer?

Será que é mais uma pessoa para falar que eu tenho que tomar banho? Minha mãe e minha avó já desempenham esse papel muito bem. Será que é mais uma mão para me escovar e tirar os meus nós? Isso seria castigo Basta tia Ina e mamãe. Pode ser que papai venha para quebrar o protocolo, me tratar feito princesa e me cobrir de torradinhas e brinquedos.

A Saga de Bebelily VII: A porta estava...

Do hall de entrada, deito nas lajotas cuidadosamente enceradas e observo o movimento da casa. O quarto da minha avó, sempre de portas abertas com o bebedouro de fauna e afins. O quarto do meu tio sempre trancado e sem interesse. Mas o quarto da minha bisavó é a minha tara.

Depois de fuçar pelo jardim, passo a maior parte do meu tempo encarando aquela porta e repetindo mentalmente: Abra-te Sésamo. Tento ver se com o jargão de Silvio Santos convenço a porta e invoco animadamente: “E vamos abrir a porta da esperança.”. Sem sucesso. Após várias tentativas frustradas a mente fica cansada. É preciso desopilar. Vou até o portão para ver o movimento. Horário bom. Crianças indo para a escola. Tento me comunicar com elas. Lato feito uma desesperada. Mas elas não me dão bola. Corro para cima, corro para baixo. Repito a operação. Fico exausta. Volto para dentro de casa e eis a minha surpresa: a porta do quarto proibido está aberta. Desenfreada, tenho a sensação de invadir o quarto. Quando chego no climax, no pote de ração da Jacira – a gata da minha bisavó - vem uma voz lá de longe: Lilynha, mamae está chamando. Era a mesma voz inconveniente que tirou Narizinho do Reino das Águas Claras no mundo mágico de Monteiro Lobato. Ou que despertou Alice quando explorava o País das Maravilhas. E que me tirou também do quarto de Quinquilharias…

Não me dou por vencida. Na hora do almoço reforço a guarda no quarto da minha bisavó, pois é a hora do frango real da princesa Juçara. Ele sai da cozinha desfiado, cheiroso e gostoso num pires de prata. Atravessa a sala, passa pelo hall e é colocado na vasilha de ouro da princesa.

A porta abre, meu estômago vibra de esperança. A porta fecha, meu mundo acaba. Cadê o pó do pirlimpimpim para fazer a transposição do meu ser para dentro da vasilha de frango? Será que os sapatinhos de Dorothy caberiam nas minhas patinhas peludas? Ah, eu com a varinha mágica de Harry Potter…

Quantos detalhes têm aquele quarto proibido. Vários brinquedinhos. Várias distrações. A felina é doceira de primeira, prepara uns chocolates finos na bandeja de areia. Delícia. Ninguém gosta dessa iguaria, só eu. E quando me pegam prestigiando a Juçara é uma gritaria só. Minha mãe fala que aquilo é coisa do demônio e purifica minha boca com água e sabão. Outras pessoas me olham com nojo. Só a Yrles – minha bisavó - me lança um olhar de paisagem e pergunta: Estava gostoso, nenem?

Uma lufada de vento me desgrenha o dorso. Que ventarola descabida! Olho de soslaio para a porta. Ela estava entreaberta. O coração disparou. Fui em direção a ela. Era o momento de meter o fucinho, empurrar a fresta que restava porta e invadir. Mas já era tarde. Não havia chocolates finos, nem frango, nem nada… É, talvez estar vivo seja isso, espreitar os momentos que morrem…

quinta-feira, novembro 27, 2008

Sob nova direção

Agora esse Blog é meu. E estou arrumando ele do meu jeito. Os textos da minha mãe eram muito amargurados. Peço paciência aos meus leitores e leitoras para que deixem eu arrumar a casa. De novidade, só o quadro do Mukito. Boa leitura! Em breve, novidades.

terça-feira, setembro 02, 2008

A Saga de Bebelily VI: Solidão é castigo



Não sei contar as horas. Tampouco sei o que elas significam. Só sei o que é saudade. A casa nunca esteve vazia por tanto tempo. Acho que nunca passei uma noite da minha existência sem a presença da minha mãe ou da minha avó. Ficar sem as duas vai fazer de mim, daqui para frente, uma cadela com uma falha no caráter.

Continuo não sabendo contar as horas, mas sei que elas passam. O dia começa quando o sol nasce. Eu adoro o sol. Ele deixa o quintal mais atraente. Bichanos alados passeiam pelo meu jardim. Fuçam as minhas flores. No entanto, eu nem cobro pedágio para isso. Fico deitada na pedra, tomando banho de sol e contemplando as borboletas, os pássaros, os mini-insetos-insignificantes.

Quando alguém da família acorda, retorno as minhas funções básicas de cachorro: abano o rabo e faço festa, na tentativa de ganhar algum pedaço de pão remanescente do café da manhã. Com a minha bisavó essa tática é sucesso garantido.

Enfim, minha avó mal chegou de viagem e já arrumou as malas novamente para passar o aniversário num lugar chamado Búzios. Percebi a movimentação de malas e fui ficando tristinha, triste e tristezona. Para piorar a situação minha mãe também fez as malas. Que dó! Ela foi relutante, não queria me deixar para trás. Minha avó disse que era melhor eu ficar em casa, caso contrário meu bumbum empinado iria ganhar o bredo e ir embora areia afora.

Confesso que minha mãe ponderou comigo. Ela me contou que seria uma longa viagem de carro – eu odeio ficar 30 minutos dentro do carro, quiças 3 horas e pouca. Já fiquei receosa desse lugar distante.

Outro argumento foi que para conter a minha vocação de cadela explorer, eu teria que ficar sempre na coleira – eu tenho ojeriza a esse treco que prende no peito e tem uma corda. Imagina eu ter que ficar na minha coleira cor-de-rosa de pequeno alcance? Meu fim social. Isso com certeza entraria no hall dos meus pesadelos mais medonhos – soou ambíguo, mas faço questão de usar a estrutura para enfatizar.

Como eu iria ver o mar amarrada? E se eu gostasse e quisesse pegar a onda? E se eu tivesse medo e quisesse fugir dali? De receosa fiquei desanimada. Minha avó tinha aberto exceção só para eu ir. Como poderia abandonar o meu companheiro de todas as horas para trás? Ele já sofreu na partida delas, imagina ficar sem mim.

Minutos antes, em protesto, ele entrou no carro e se enfiou atrás do banco do carona. Foi difícil demovê-lo da idéia. Cada pessoa que tentava tirá-lo do carro, recebia como resposta uma rosnada ou um sorriso amarelo de cachorro raivoso - naquele momento ele seria capaz de morder, ele estava desesperado. Tentaram me usar como isca, chamando o meu nome e me oferecendo vários pacotes de torradinhas e pães. De nada adiantou. Minha avó tentou de todas as formas: da carinhosa à “vem aqui seu puto”.

Meu tio veio com uma toalha para fazer uma espécie de chicote. Foi em vão. Ele só saiu dali com a minha mãe. Ela chegou com jeitinho, chamou-o, pegou-o carinhosamente no colo e levou-o para dentro de casa. E, dali, elas partiram.

Pensei que fossem voltar quando a noite caísse. Fiquei esperando. Dormi, acordei, dormi, acordei e nenhum sinal delas. Teriam ido à uma festa? Teria acontecido alguma coisa? Eu estava triste e preocupada.

Um novo dia chegou e nada delas. A casa funcionava normalmente. Os empregados seguiam o cotidiano mas faltava elas. Passou a hora do almoço e nada. Mais uma noite sem a minha mãe e minha avó. Quanta tristeza! Essa casa está entendiante. Chata. Parada. Sem ninguém para eu poder dormir nos pés. Sem quase ninguém para reclamar dos meus latidos – só o meu tio que pernoita por aqui, isto é, quando dá o ar da graça.

Um barulho lá fora interrompeu os meus pensamentos. O portão eletrônico se abria, um jeito diferente de pisar no jardim se aproximava da porta da frente. Fiquei em alerta no sofá, latia, rosnava, latia e rosnava. Quem seria aquela hora da noite? Por que demorava tanto a entrar em casa? Entre latidos e rosnados fareijava a origem daquele ser. Já estava pronta para dar o bote, morder a canela. A porta se abriu. O bote furou com o meu rabo que abanava sem parar: era a mamãe para tirar a solidão que era o meu coração.

A Saga de Bebelily V: A viagem


Um movimento estranho tomou conta da casa. Minha avó entrou em dieta. Começou a sair mais e a receber uma amiga baixinha e de voz engraçada, que vez ou outra solta um “Puta que o pariu”. A conversa também mudava. Os aborrecimentos e reclamações davam lugar a devaneios e reflexões sobre Pequim, Tóquio e Dubai. Estas últimas palavras nem fazem parte do meu vernáculo canino. O que seria Pequim? Uma espécie de cão da raça pequinês? E Dubai? Um elefante branco? Ah, meu sonho é conhecer um elefante branco. Mas por enquanto, posso dizer que conheci um esquilo de nome Godofredo. Não é muito, mas é um esquilo, que acabou perdendo a vida nas garras da Gilsandra. Pobre Godofredo!

Enfim, na casa a conversa era única, parecia até que os assuntos do mundo haviam se esgotado: tudo girava em torno da viagem da minha avó. Ela passaria um mês fora e visitaria meu tio no Japão e minha tia na China – a mãe do Floc. Sugeriram até colocá-lo na mala. Só de pensar nisso, me deu um aperto no peito. Como ficaria sem o meu companheiro fiel? Nós somos como irmãos, unha, carne e pêlo. Não podiam nos separar. Já estava até escondendo os documentos dele para que não fizessem seu passaporte. Escondi tão bem, que ele acabou não embarcando.

Na ausência de minha avó ficou decidido que minha mãe assumiria a administração do lar, minha tia Vivi se mudaria para cá, minha tia Jader subiria do Rio assim que pudesse e eu e Floc cuidaríamos da integridade da casa. Durante a gestão da minha mãe os empregados quase enlouqueceram. Mas tudo entrou no ritmo que deveria ser.

Uma semana antes da minha avó viajar, a Nina teve uns probleminhas de saúde. Foi para clínica veterninária e nunca mais voltou. Minha mãe disse que a colocaram para dormir para sempre. Confesso que a graça do meu dia diminuiu um pouco. Mas encontrei uma substituta a altura, só que essa é mais astuta: é a Gilsandra, que também atende por Jacira – uma gata vira-lata longelínea da minha bisa – a assassina do Godofredo.

Tudo se confirmou numa segunda-feira a noite. Uma mala enorme invadiu o meu habitat – a cama da minha avó – com pilhas e mais pilhas de roupas espalhadas. Eu e meu companheiro Floc iniciamos um protesto velado. Eu me aboletei na mala de mão e o Floc ocupou o topo de uma das pilhas de roupa e lá ficamos. De nada serviu a manifestação. Só conseguimos despertar o riso da família e uma sessão de fotos.

Eu lembro dessas malas grandes e cheias de roupa – contava ao Floc. Lembra do nosso Tio que aparece aqui de vez em nunca, ele vem cheio dessas coisas grandes cheia de roupa dentro. Lembra também quando minha mãe foi viajar. Também usou um desses porta-trecos gigantes. Mas o bom disso tudo, é que eles sempre voltam. A Nina, por exemplo, partiu sem malas e nunca mais voltou. Olhei para o lado e percebi que estava falando sozinha. O Floc já estava roncando e babando.

No dia seguinte, minha avó partiu para uma aventura pelo Oriente. A cama dela ia ser só minha. Eu ia me espalhar de todas as formas. Ia dormir no meio da cama. Ou melhor, seria uma noite itinerante, já que sou pequenininha, iria ocupar todos os espaços da cama. Eu e Floc já tinhamos feito um trato de divisão de cama: eu ocuparia o lado da minha avó e ele o outro lado. Na primeira noite sem a minha avó, a cama foi ocupada pela minha mãe. Mas o mais frustrante ainda, foi na noite seguinte: a cama foi ocupada pela minha mãe e pela minha tia Virginia. Ficamos inconformados – eu e Floc – e resolvemos incomodar.

Os latidos na madrugada eram por minha conta. O Floc se ocupava de importonu-las. Com o seu peso pena, tentava empurrá-las para fora da cama. Caminhava em cima delas. Compramos uma briga arriscada, sem pensar que elas poderiam racionar nossa comida, cessar com a nossa brincadeira ou tirar o nosso sono. Minha tia Vivi foi enérgica quando o Floc a empurrou da cama. "Floc, quando você estiver dormindo eu vou te empurrar também.", dizia ela.

E só por causa dos meus latidos, fui proibida de dormir de dia. Minha mãe ou minha tia quando me encontravam dormindo pela casa me pegavam, me sacolejavam, me empurravam, mas dormir eu não podia. Mesmo assim, durante a noite eu dava os meus latidos a esmo. E o Floc continua no empurra-empurra e assim os dias se passaram.