
Não sei contar as horas. Tampouco sei o que elas significam. Só sei o que é saudade. A casa nunca esteve vazia por tanto tempo. Acho que nunca passei uma noite da minha existência sem a presença da minha mãe ou da minha avó. Ficar sem as duas vai fazer de mim, daqui para frente, uma cadela com uma falha no caráter.
Continuo não sabendo contar as horas, mas sei que elas passam. O dia começa quando o sol nasce. Eu adoro o sol. Ele deixa o quintal mais atraente. Bichanos alados passeiam pelo meu jardim. Fuçam as minhas flores. No entanto, eu nem cobro pedágio para isso. Fico deitada na pedra, tomando banho de sol e contemplando as borboletas, os pássaros, os mini-insetos-insignificantes.
Quando alguém da família acorda, retorno as minhas funções básicas de cachorro: abano o rabo e faço festa, na tentativa de ganhar algum pedaço de pão remanescente do café da manhã. Com a minha bisavó essa tática é sucesso garantido.
Enfim, minha avó mal chegou de viagem e já arrumou as malas novamente para passar o aniversário num lugar chamado Búzios. Percebi a movimentação de malas e fui ficando tristinha, triste e tristezona. Para piorar a situação minha mãe também fez as malas. Que dó! Ela foi relutante, não queria me deixar para trás. Minha avó disse que era melhor eu ficar em casa, caso contrário meu bumbum empinado iria ganhar o bredo e ir embora areia afora.
Confesso que minha mãe ponderou comigo. Ela me contou que seria uma longa viagem de carro – eu odeio ficar 30 minutos dentro do carro, quiças 3 horas e pouca. Já fiquei receosa desse lugar distante.
Outro argumento foi que para conter a minha vocação de cadela explorer, eu teria que ficar sempre na coleira – eu tenho ojeriza a esse treco que prende no peito e tem uma corda. Imagina eu ter que ficar na minha coleira cor-de-rosa de pequeno alcance? Meu fim social. Isso com certeza entraria no hall dos meus pesadelos mais medonhos – soou ambíguo, mas faço questão de usar a estrutura para enfatizar.
Como eu iria ver o mar amarrada? E se eu gostasse e quisesse pegar a onda? E se eu tivesse medo e quisesse fugir dali? De receosa fiquei desanimada. Minha avó tinha aberto exceção só para eu ir. Como poderia abandonar o meu companheiro de todas as horas para trás? Ele já sofreu na partida delas, imagina ficar sem mim.
Minutos antes, em protesto, ele entrou no carro e se enfiou atrás do banco do carona. Foi difícil demovê-lo da idéia. Cada pessoa que tentava tirá-lo do carro, recebia como resposta uma rosnada ou um sorriso amarelo de cachorro raivoso - naquele momento ele seria capaz de morder, ele estava desesperado. Tentaram me usar como isca, chamando o meu nome e me oferecendo vários pacotes de torradinhas e pães. De nada adiantou. Minha avó tentou de todas as formas: da carinhosa à “vem aqui seu puto”.
Meu tio veio com uma toalha para fazer uma espécie de chicote. Foi em vão. Ele só saiu dali com a minha mãe. Ela chegou com jeitinho, chamou-o, pegou-o carinhosamente no colo e levou-o para dentro de casa. E, dali, elas partiram.
Pensei que fossem voltar quando a noite caísse. Fiquei esperando. Dormi, acordei, dormi, acordei e nenhum sinal delas. Teriam ido à uma festa? Teria acontecido alguma coisa? Eu estava triste e preocupada.
Um novo dia chegou e nada delas. A casa funcionava normalmente. Os empregados seguiam o cotidiano mas faltava elas. Passou a hora do almoço e nada. Mais uma noite sem a minha mãe e minha avó. Quanta tristeza! Essa casa está entendiante. Chata. Parada. Sem ninguém para eu poder dormir nos pés. Sem quase ninguém para reclamar dos meus latidos – só o meu tio que pernoita por aqui, isto é, quando dá o ar da graça.
Um barulho lá fora interrompeu os meus pensamentos. O portão eletrônico se abria, um jeito diferente de pisar no jardim se aproximava da porta da frente. Fiquei em alerta no sofá, latia, rosnava, latia e rosnava. Quem seria aquela hora da noite? Por que demorava tanto a entrar em casa? Entre latidos e rosnados fareijava a origem daquele ser. Já estava pronta para dar o bote, morder a canela. A porta se abriu. O bote furou com o meu rabo que abanava sem parar: era a mamãe para tirar a solidão que era o meu coração.
Continuo não sabendo contar as horas, mas sei que elas passam. O dia começa quando o sol nasce. Eu adoro o sol. Ele deixa o quintal mais atraente. Bichanos alados passeiam pelo meu jardim. Fuçam as minhas flores. No entanto, eu nem cobro pedágio para isso. Fico deitada na pedra, tomando banho de sol e contemplando as borboletas, os pássaros, os mini-insetos-insignificantes.
Quando alguém da família acorda, retorno as minhas funções básicas de cachorro: abano o rabo e faço festa, na tentativa de ganhar algum pedaço de pão remanescente do café da manhã. Com a minha bisavó essa tática é sucesso garantido.
Enfim, minha avó mal chegou de viagem e já arrumou as malas novamente para passar o aniversário num lugar chamado Búzios. Percebi a movimentação de malas e fui ficando tristinha, triste e tristezona. Para piorar a situação minha mãe também fez as malas. Que dó! Ela foi relutante, não queria me deixar para trás. Minha avó disse que era melhor eu ficar em casa, caso contrário meu bumbum empinado iria ganhar o bredo e ir embora areia afora.
Confesso que minha mãe ponderou comigo. Ela me contou que seria uma longa viagem de carro – eu odeio ficar 30 minutos dentro do carro, quiças 3 horas e pouca. Já fiquei receosa desse lugar distante.
Outro argumento foi que para conter a minha vocação de cadela explorer, eu teria que ficar sempre na coleira – eu tenho ojeriza a esse treco que prende no peito e tem uma corda. Imagina eu ter que ficar na minha coleira cor-de-rosa de pequeno alcance? Meu fim social. Isso com certeza entraria no hall dos meus pesadelos mais medonhos – soou ambíguo, mas faço questão de usar a estrutura para enfatizar.
Como eu iria ver o mar amarrada? E se eu gostasse e quisesse pegar a onda? E se eu tivesse medo e quisesse fugir dali? De receosa fiquei desanimada. Minha avó tinha aberto exceção só para eu ir. Como poderia abandonar o meu companheiro de todas as horas para trás? Ele já sofreu na partida delas, imagina ficar sem mim.
Minutos antes, em protesto, ele entrou no carro e se enfiou atrás do banco do carona. Foi difícil demovê-lo da idéia. Cada pessoa que tentava tirá-lo do carro, recebia como resposta uma rosnada ou um sorriso amarelo de cachorro raivoso - naquele momento ele seria capaz de morder, ele estava desesperado. Tentaram me usar como isca, chamando o meu nome e me oferecendo vários pacotes de torradinhas e pães. De nada adiantou. Minha avó tentou de todas as formas: da carinhosa à “vem aqui seu puto”.
Meu tio veio com uma toalha para fazer uma espécie de chicote. Foi em vão. Ele só saiu dali com a minha mãe. Ela chegou com jeitinho, chamou-o, pegou-o carinhosamente no colo e levou-o para dentro de casa. E, dali, elas partiram.
Pensei que fossem voltar quando a noite caísse. Fiquei esperando. Dormi, acordei, dormi, acordei e nenhum sinal delas. Teriam ido à uma festa? Teria acontecido alguma coisa? Eu estava triste e preocupada.
Um novo dia chegou e nada delas. A casa funcionava normalmente. Os empregados seguiam o cotidiano mas faltava elas. Passou a hora do almoço e nada. Mais uma noite sem a minha mãe e minha avó. Quanta tristeza! Essa casa está entendiante. Chata. Parada. Sem ninguém para eu poder dormir nos pés. Sem quase ninguém para reclamar dos meus latidos – só o meu tio que pernoita por aqui, isto é, quando dá o ar da graça.
Um barulho lá fora interrompeu os meus pensamentos. O portão eletrônico se abria, um jeito diferente de pisar no jardim se aproximava da porta da frente. Fiquei em alerta no sofá, latia, rosnava, latia e rosnava. Quem seria aquela hora da noite? Por que demorava tanto a entrar em casa? Entre latidos e rosnados fareijava a origem daquele ser. Já estava pronta para dar o bote, morder a canela. A porta se abriu. O bote furou com o meu rabo que abanava sem parar: era a mamãe para tirar a solidão que era o meu coração.

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