quarta-feira, dezembro 02, 2009

Visita da prima

Movimentação estranha na casa. Enrola o tapete daqui. Corta grama dali. Sim, a Giulia ia chegar. Minha avó estava eufórica com a chegada da neta. Finalmente a menina de Paris, menina dos olhos da vovó iria chegar mandando e desmandando. Fui até mandada para o banho em regime especial: em vez da van do banho vir me buscar, vovó e mamãe me levaram para o banho. Não apenas me levaram, mas me buscaram também. E uma tragédia: me pelaram, me tosaram, me tiraram o centro, o equilíbrio. Estava com calor, eu confesso, mas também não era para tanto. Meus pelos, ah, meus pelos. Só de pensar neles, atirados no chão por uma máquina zero, me revolto! Voltei para casa com uma sombra, andava pela lajota e meu andar me anunciava para quem quisesse ouvir. Não havia mais pelos para amortecer o meu desfile. Era uma sensação muito estranha. Roçava pelo chão e sentia toda a sua frieza, que antes era aplacada pela minha pelagem. Subia nas cadeiras, no sofá, sentia-me flutuar. Ô Céus, como eu estava ridícula. Olhava para minha mãe destilando a minha amargura: “Como você pode fazer isso comigo? Todos riem de mim.” De fato, todos estavam rindo de mim. Minha tia Vivi chegou a duvidar da minha identidade. Estranhei quando ela chegou me chamando de “Pitucão”, “Lily”, “Bebelily”, esperando alguma reação. Sim, era eu! Simplesmente eu, BebeLily Streit. Tosada e não prostituida. Mas quase... e ainda tinha que aturar o Floc, que me achava afrodisíaca depois do banho. Com a tosa, então...

Censura! A criança chegou, ou melhor a princesa Giulia. Será que ela me reconheria? Tensão. O carro chega, sobe portão acima, estaciona na garagem. Meu coração a mil! Repito a pergunta: Será que ela me reconheceria? Abrem a porta da esperança, é a minha chance de ser envolvente. Vou até a criança, pulo, me mostro, e logo, logo, o reconhecimento: “É a Lily!” . Ufa, me atiro no chão, de barriga para cima, agradeço ser reconhecida, apesar dos pelos. E mais um tempo depois, não era mais Vovó, nem titia, nem Floc, era só Lily. Lily daqui e dali! Ganhei menção honrosa e agradecimentos. A pequena me pegou no colo como um troféu. Ai Ai minha patinha, cuidado! Ser cachorrinho de criança é bom por um lado, mas dá trabalho por outro. Floc, se manda, ela está vindo com o pincel cheio de tinta verde colorir o nosso pelo branco. E agora, a canetinha rosa. Sebo nas canelas tosadas! Vamos para a mamãe.!

Alivio. A tinta foi para a tela. Eu e Floc ilesos. Agora era hora de brincar. Pegar os brinquedos do chão. A Arara Azul, as xícara do jogo de chá das bonecas, os pratos e talheres do lava-louva. Tudo era irresistível! Tudo parava na minha boca! Como era bom ser criança! Queria brincar também! Repreenderam-me... Comi massinha vermelha, giz de cera rosa, tampa de canetinha amarela, facas de plástico, panelinhas, tudo que estava ao meu alcance, no chão... Que vida boa!

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