sexta-feira, dezembro 25, 2009

Era uma vez num reino encantado se prepare para sonhar...


Nunca me dão crédito, nunca me dão nada. Não consigo nem comer o pão que me dão, sou roubado antes de chegar ao sofá. Sim, é sempre ela: a Lily. Eu gosto dela, a gente se dá bem, mas ela é autoritária demais. Mais uma vez roubei o blog dela para mim. Deixaram-me aqui, preso no quarto, só porque eu mordo e tem estranhos na casa. Não me dão crédito para mudar. Sempre serei aquele cachorrinho branco e mau.. Mas eu sou um doce, perguntem para minha mãe....

Para quem não me conhece, eu sou o Floc. Não sou tão bom com as palavras. Sou mais retraído. Não gosto de ficar só. Fico deitado na varanda, esperando qualquer movimento da casa. A casa fica parada, nem um ventinho para agitar as árvores. Mamãe saiu com a promessa de que voltaria logo. E, cá estou eu, esperando, e nem tem cinco minutos que ela se foi. Será que demoraria? Até a Lily me deixou. Minha bexiga está explodindo, mas não posso fazer isso aqui no quarto da mamãe. Ela brigaria comigo, e, eu odeio quando ela grita comigo. Me sinto mal. Abaixo a cabeça e deito aos pés dela, como se implorasse para que ela me pegasse em seus braços e me fizesse um carinho.

Vim do Sul, minha educação é quase britânica e minhas carências também. Sou cachorro de colo, sim. Adoro um chamego. Lato e até mordo para defender a integridade do meu lar. Sou cão das antigas... O tempo passa e minha mãe não chega. Vou mudando de lugar pelo quarto. Deito na cama. Deito no tapete. Deito na varanda. E nada dela. Enquanto isso, passam de um lado para o outro, no jardim, uns homens que nunca vi antes, carregando portas e móveis de um canto para o outro. E eu fico puto e começo a latir. Pergunto se eles sabem por onde anda minha mãe, e eles não me respondem! Viram as costas para mim! Lato mais alto.

Sem querer, ligo a televisão. Pelo menos me faz companhia. Mas não me diverte. Converso com o Janjão, urso que meu padrasto deu para mamãe. Ele me acolhe nas patas de pelúcia. Pego no sono. Sonho que sou dono de um mundo só meu, que os brinquedos são só meus e que eu tenho uma mãe só para mim. Sonho que tenho duas empregas para me fazer cafuné, sou sultão nesse palácio. Uma moça loira aparece e de repente, Brum Tocra Brum Tocra Brum,, mamãe chegando para me soltar enfim. Ela chega, entra em casa e nem olha para mim. Lato, berro, grito, mas é em vão.

Deito na varanda e fico olhando-a pela treliça. Ela sobe as escadas, atravessa a piscina e vem ao meu encontro. Estou eufórico. Ela voltou para mim. Subo na cama e faço festa e imploro para ir ao banheiro. Ela parece me entender, abre a porta e me deixa solto pelo jardim. Lá, pareço voltar ao meu sonho, como miragem me aparecem: A moça loira de nome Alice, o coelho com o relógio, a rainha de copas. E ele fala comigo: “Ai, ai, meu Deus! Alô, adeus! É tarde, é tarde, é tarde!”, e some jardim afora.

Procuro mamãe pela casa, não a encontro. Aliás, não tem ninguém em casa. Estou só. Além, do coelho, uma carta de baralho ganha vida na sala. Desfila impetuosa com uma roupa de coração. Dando ordem a todos os outros naipes. Eles não me notam. Vou até a cozinha. Cartas de baralho cozinham. Cartas de baralho arrumam a casa. Cartas de baralho por todos os cantos. Até que o Valete de Paus me aborda dizendo que cartas brancas não eram bem vindas àquele reino. E, que pela legislação, eu teria que ser levado até a Rainha de Copas.

Um exército de Espadas veio na minha direção e levaram-me à majestade. Vossa Majestade estava na cabeceira da mesa da sala, cercada por cartas de ouro. Dava ordens e mandava decapitar os invasores. Engoli um seco quando ela me olhou. Tentei fazer cara de simpático, bom moço, de cachorro que caiu da mudança. Ela simpatizou comigo por alguns segundos. Mas logo depois veio a ordem: Cortem-lhe o pescoço e depois me façam uma echarpe. A última coisa que vi antes de apagar foi um baralho inteiro me rodeando, desmaiei de susto.

Acordo no sufoco, coração a mil. Ainda estava vivo. Que horas seriam? Onde estavam as cartas? Ufa! Era só um sonho! Quanto tempo teria dormido? Olho a minha volta, em cima da cama, ao meu lado: uma carta de Às de copas e um relógio de bolso. Pelas contas, tinham se passado apenas 20 minutos que mamãe tinha saído. Demoraria quanto tempo mais para voltar? Qual seria o meu próximo destino: provar o pó do pirlimpimpim das Reinações de Narizinho?

Nenhum comentário: