domingo, dezembro 02, 2007

A saga de Bebelily IV: minhas ocorrências

Acordei ainda amarrotada. Já tinha carregado todas as minhas energias. Estava pronta para mais um dia de travessuras e brincadeira. Olhei a minha volta. A casa estava silenciosa. Todos ainda dormiam. Que horas deveriam ser? Era cedo. Bem cedo. Ainda não tinha o aroma de café invadindo o meu quarto. O pote de torradas ainda estava fechado. O silêncio era ensurdecedor, estava me deixando aflita. Nem a minha amiga Garfield miava.

Levantei. Fui dar uma volta pela casa. Todas as portas estavam fechadas para mim. Todos dormiam, inclusive o meu companheiro Floquinho. Fui ficando triste, entendiada e chata. Todos dormiam e o sol já raiava. O galo da vizinha já estava no seu décimo terceiro cocoricó. E eu acordada não podendo brincar com ninguém. Aquilo era algum castigo?

Pensei no meu dia anterior, teria feito alguma bobagem? Hummm, subi em cima da mesa e resolvi brincar com um pacote de pão de batata. Eita brincadeira apetitosa. Comecei mordendo o saco. Aí, ele rasgou, o cheiro era enlouquecedor. Resultado comi quase o saco inteiro. Minha avó ralhou comigo, mas nada quee justificasse esse longo voto de silêncio. Ela ainda tentou rogar uma praga para que eu tivesse uma dor de barriga, mas foi em vão. Tenho estômago de avestruz.

Durante o dia anterior também teve um episódio triste. Eu juro que sou inocente. Era uma manhã de terça-feira. A chuva tinha dado uma tregua. Fui dar o meu passeio matinal pela casa. Cumprimentar os passarinhos, saudar as pessoas que passavam na rua, cheirar as flores, brincar com uma ou outra folha seca que caia, me perder no pêlo de urso - uma espécie de tapete verde, muito macio. Eram tantas coisas que fazia por aquele jardim. Aquilo tomava uma boa parte do meu dia. Tantas distrações.

Quando fui fazer a ronda pelos coquinhos dos esquilos - sim minha casa tem esquilo. Não é ficcção. Avistei entre um ou outro coquinho ruido algo peludo, escuro, que não consegui identificar de longe. Aprumei o faro e cheguei mais perto. Ajustei o meu ângulo focal e dei mais zoom. Meu coração batia cada vez mais forte a cada passo dado. Constatei que era meu amigo Godofredo, um esquilo que dividia os prazeres daquele lar comigo.

Ele estava estirado no chão. Teria caido da árvore e batido a cabeça? Cheguei mais perto. Nenhum sinal de vida, a barriguinha dele nem subia nem descia, estava estática. Dei-lhes umas focinhadas e nada. É, Godofredo havia falecido naquela fatídica manhã de terça-feira.
Mas não era hora para chorar. Tinha que providenciar um enterro digno para meu amigo e antes tinha que descobrir a causa mortis dele. A la Diana Caçadora examinei a área com cuidado. Sem fazer movimentos ousados me embrenhei no pêlo de urso e observei ao meu redor. Notei que havia pegadas do chão. Eram menores que as minhas. Mais safas que as minhas. Mais meticulosas que as minhas, mais rempli de soi-même que as minhas. Eram pegadas de felino. A Nina Garfield não teria essa sagacidade, a Juçara vive trancada com a minha avó - tenho pena daquela gata. Que vida regrada ela leva!

No meio das minhas divagações vi um chumaço de pêlo preto que só poderia ser do gato preto que andava rondando a casa. Guardei essa informação e fui cuidar de Godofredo.
Carinhosamente abocanhei o esquilo de corpo miúdo e fui levar para alguém fazer alguma coisa por ele. A primeira impressão foi horrível, me acusaram de assassinato. Quase peguei prisão perpétua. Eu só queria dar um enterro digno para ele. Até o Floc parou de falar comigo. Minha avó me reprimiu duramente. Queria me deixar para fora de casa.

Uma porta se abriu interrompendo os meus pensamentos. Era D. Gelsa com o saco de pão e esperança de uma manhã cheia de brincadeiras. Será que ela me daria um pedacinho de pão?

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